Mãe quer mostrar que Geovane Gabriel não é bandido

Aperte nestes botões para aumentar a fonte:

(Diminuir/Resetar/Aumentar)


Priscila Gomes teve Geovane Gabriel aos 14 anos e se mudou ao Guarapes, zona Oeste de Natal, com seus filhos ainda bebês.  De acordo com a dona de casa, de 33 anos, Gabriel era estudioso, queria ser Policial Militar, cursava informática e queria um futuro melhor. Por ironia do destino, a PM e ele se cruzaram, mas não do jeito que ele queria em junho.

O rapaz, a caminho da casa da namorada, a Ana, foi abordado de forma brutal pela PM. “Ele ia fazer uma surpresa para ela. Estava empolgado, era um ano de namoro. Muito apaixonado”, comentou. Gabriel, como o chamavam, saiu de casa bem cedinho com a sua bicicleta para Parnamirim e era uma sexta-feira.

Foi assistindo sobre o caso Miguel de Recife que sentiu algo de errado

Enquanto isso Priscila foi assistir “Encontro com Fátima Bernardes” e viu o caso de Mirtes, moradora de Recife, que perdeu seu filho Miguel após ter sido colocado sozinho no elevador e em seguida caiu do nono andar após se perder. Quem havia deixado a criança de cinco anos sozinha foi a patroa de Mirtes, Sarí Corte Real, que conduziu o garotinho para a estrutura.

“Quando ela começava a falar, eu chorava muito. Não sabia o motivo, porque sou muito difícil de chorar. Mas, eu depois soube que esse foi o horário que Gabriel foi pego pelos policiais e morto em seguida”, declarou com olhos cheios de lágrima e tentando ser forte.

Quando acabou Fátima Bernardes, o relógio bateu 12 horas e foi mandar uma mensagem para Ana e aí respondeu que ele ainda não tinha chegado. “Bateu um desespero e eu senti que alguma coisa estava errada”, disse.

O desaparecimento

Após nove dias, Gabriel foi encontrado em um matagal na cidade de São José de Mipibu de bruços e amarrado, mostrando que foi bastante agredido. Após dois meses de investigação, a Polícia Civil prendeu um Policial Militar que atuava em Goianinha, sendo como um dos autores do crime.

Priscila confirma que Gabriel já foi abordado por PMs

De acordo com os investigadores, o policial militar achara que o rapaz era um dos assaltantes que roubaram o carro da família. O mesmo, portanto, resolveu se vingar. O PM efetuou vários disparos na região da cabeça da vítima.

Geovane Gabriel morto pela Polícia Militar em junho (Foto: Facebook)

A investigação acreditara que o PM contara com outras pessoas. E contou. Nesta sexta-feira (18), mais três policiais que atuavam na cidade de Goianinha. “Gabriel já sofreu duas vezes um baculejo. Aqui é comum, infelizmente. Acha que todo mundo tem má intenção só porque é do Guarapes. Muitas vezes eu pedia para ele ter cuidado com quem anda. As pessoas pensam aqui é só violência, mas eu gosto de viver aqui. É um bom bairro”.

“Não sei quem são os policiais”, disse Priscila Gomes

Ao ser questionada sobre o que já contaram da investigação, a Priscila prontamente respondeu: “Eles contam quase nada do que está acontecendo. Além disso, a única coisa que eu sei é que os quatro PMs era um soldado e três cabos”. E ela quer conhecê-los?

Rapidamente em um tom humano, ela disse que sim e queria compreender o porquê deles terem feito esta atitude fatal.

“Queria olhar nos olhos desses homens para saber o que eles fariam ao encontrar comigo, se existe só maldade ou alguma compaixão. Porque eu sei que a mãe de cada um deve está sofrendo igual a mim”, lamentou a mãe que enfatizou várias vezes as palavras de justiça e fim da violência policial.

“Eu criei meu filho para ser um homem íntegro”

Priscila conta que Gabriel era um menino cheio de sonhos e ideais. “Ele estava estudando, todos os dias ia para zona Norte fazer o curso de informática. Era trabalhador, queria um futuro melhor. Sempre estava sorrindo, nunca tinha tempo ruim e hoje a família está totalmente destruída”.

Agora, a sua vida é mostrar que Gabriel está vivo para que outras mães não percam os filhos da mesma forma. “Olha, tem dias que é muito difícil, choro bastante e fico questionando o porquê. Às vezes rola uma fraqueza mesmo. Mas, eu estou recebendo mensagens de muitas pessoas, algumas que nem conheço, que mandam oração, compartilham histórias parecidas e pedem para eu ter força”, relembrou.

E agora, qual o próximo passo? “Quero mostrar a todos que mesmo tendo sido mãe jovem e morando na periferia, eu consegui criar um homem honesto e trabalhador, apesar de todos os esforços. Nunca faltou nada na minha casa. Meu filho não é bandido e este é o meu principal objetivo”, finalizou.

Ato pedindo justiça por Gabriel

No final da tarde deste sábado (20), os familiares de Gabriel comemoraram o aniversário de 19 anos a partir de um ato na Praça do bairro. Novamente ecoaram gritos de justiça.

Ato em homenagem à Geovane Gabriel (Fotos: Lara Paiva)

“Está difícil viver um mundo sem ele. Hoje é só por foto. Nunca consegui imaginar. A nossa diferença é de 1 ano, mas sempre vivíamos juntos. Hoje, ele iria ficar tão feliz, não iria parar de falar, já tinha uma lista de presente de aniversário. Ano passado, a gente comemorou com um bolo do Flamengo, docinhos e muita alegria. A camiseta que estou usando foi da festa (aponta para a camiseta). Se fosse hoje, ele e meu padrasto, que é palmeirense, iriam ficar zoando, principalmente, porque o Mengo perdeu de 5 a 0”, contou Geovana Souza, irmã de mais velha de Geovane Gabriel.

Geovana contou que infelizmente os baculejos dos policiais são muito comuns. “Muitas vezes Gabriel zoava isso nas redes sociais, apesar de ter sofrido algumas vezes. A maioria dos garotos parou na delegacia caminhando de camburão”, lamentou.

Assim como a mãe, ela quer a lembrança de Gabriel na mente das pessoas. “Ele era um homem honesto, engraçado e tinha sonhos e lutas. Queria ser policial, porque a gente participou de um curso pré-militar aqui no bairro. Queria crescer e ter um futuro melhor”.

Além do ato político, um muro em homenagem à vítima foi grafitado em memória dos seus 19 anos na rua Novo Guarapes, a principal. “Quem passará nas ruas do Guarapes vai ver a imagem e não quero que meu filho, portanto, seja esquecido e muito menos ser chamado de bandido”, disse Priscila.