Hardcore antifacista: Antifacismo tem que ser dialogado com o alvo dos ataques fascistas

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O que é o fascismo ? Uma ideologia política ultranacionalista e autoritária, que surgiu inicialmente na Itália, durante a gestão de Benito Mussolini. É caracterizada por poder ditatorial, repressão da oposição por via da força e forte arregimentação da sociedade e da economia, foi a raíz de outros regimes totalitários que surgiram na Europa, inclusive o Nazismo, dominando a Alemanha sob a liderança de Adolph Hitler. Além disso, é oposto ao liberalismo, ao marxismo e ao anarquismo, o fascismo posiciona-se na extrema-direita do espectro político tradicional. Com medo do forte conservadorismo prometido na gestão de Jair Bolsonaro, que está há uma semana no poder, grupos políticos na linha de esquerda estão dialogando das mais diversas formas possíveis.

Assim que tomou posse, uma das primeiras medidas de Bolsonaro foi tirar o grupo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgênero) nas diretrizes dos Direitos Humanos através de uma Medida Provisória. Contrariando a Declaração de Direitos Humanos de 1945, da Organização das Nações Unidas (Onu), que surgiu após o fim da Segunda Guerra Mundial, onde muitos governos totalitários foram dissolvidos.

Recentemente, em Natal, mais precisamente neste domingo (6), aconteceu o evento chamado Hardcore contra o Facismo, onde inicialmente houve uma roda de conversa para explicar o conceito para o público presente, os perigos de um governo autoritário e representantes de grupos políticos debatendo e questionando seus medos da nova gestão. Depois, houve uma roda de shows com rap e bandas de hardcore e punk. Enquanto os vocalistas gritavam mensagens: contra o facismo, racismo, xenofobia e dentre outros os preconceitos que envolvem as minorias; as pessoas estavam bebendo e se confraternizando.

Porém, tínhamos um problema: mais da metade do público veio das universidades federais e públicas, onde o assunto é debatido cotidianamente, desde mesa-redonda até grandes palestras. Isso é perigoso, pois não podemos deixar de fazer a luta apenas indo as ruas e fazendo shows apenas para nossos grupinhos. Essa bolha tem que ser furada com a mesma arma que são propagadas as Fake News através de Whatsapp. A esquerda precisa parar de ser acadêmica e agir de verdade.

Enquanto alguns batiam a cabeça, um morador de rua passava na Avenida Rio Branco chapado e pedia moedas, no qual a maioria das respostas eram não e sendo mais uma pessoa invisível na cidade.

Sem contar que o público era de branco, heterossexual e homem, no qual presenciei algumas pessoas que utilizam a esquerda nas redes sociais para criticar o Bolsonaro e o machismo, mas já bateram em namoradas ou cometeu assédios com parceiros e parceiras sexuais. Tanto que durante o intervalo de cada show, a rapper Juliana Leite, do Cablocas MCs, soltou uma rima falando deste assunto, botando o dedo na ferida, fazendo que as poucas mulheres presente batessem palmas e muitos homens tiveram que engolir a saliva de suas próprias hipocrisias. Veja o vídeo a seguir:

Não adianta querer debater de forma acadêmica, se a maioria das pessoas que já foram ofendidas pelo então presidente em seus discursos polêmicos: mulheres, negros e LGBTs, não estão na universidade, embora tenha melhorado nos últimos anos. As universidades ainda é composta, em sua maioria, por homens, gente de classe média, branca e que mora na zona Sul e Leste de Natal. Quem vai sofrer a pancada de verdade está em Mãe Luíza, no Passo da Pátria, Planalto e Região Metropolitana. Principalmente a periferia da região Metropolitana, locais que estão crescendo o tráfico de drogas e as ações policias, maioria truculenta, vai matar essas pessoas sem pensar ou questionar se é um morador ou traficante, independente se o Rio Grande do Norte for governado por Fátima Bezerra ou algum político conservador, visto quem está no Congresso Federal manda no país o que bem entender, utilizando as leis ao seu favor.

Não precisa criar uma mesa-redonda com frases filosóficas ou citar Marx para mostrar o fascismo é errado, as pessoas da periferia vão entender com poesia e música popular, visto que infelizmente o rock não é de fácil acesso.

Enquanto você está fiscalizando se seu colega de debate é um imbecil ou não (embora que ele seja mesmo), uma pessoa está assistindo programas policialescos e ouvindo diversas frases, como: “Bandido Bom é Bandido Morto”. E isso é perigoso.

Não podemos fazer o mesmo erro que nos anos 60, no qual tivemos que calar antes que alguém implante o Ato Inconstitucional 5. Precisamos ser melhores e fazer com que as pessoas tenham acesso da forma mais simples e eficaz possível.

Hardcore para criticar o atual governo (Fotos: Lara Paiva)

Quando não é o tráfico dominando a periferia potiguar, a Igreja, principalmente as neopentecostais, estão lá em sua maioria utilizando o nome de Deus em vão para estimular as pessoas a votar naquele pastor que é vereador, que se acha o dono do lugar, um mini-fascista mesmo. E são nas igrejas que o diálogo tem que surgir, questionar o porquê o faciscmo é errado, mostrar um comparativo com os evangélicos sendo perseguidos em países totalitários no Oriente Médio, utilizar a Bíblia contrargumento, explicar quem foi Martinho Lutero e dentre outras coisas. O progresso tem que ser feito em todas as camadas sociais.

A manipualção só aparece quando não há progresso social em um determinado grupo, quando as pessoas não tem acesso às necessidades mais básicas, como alimentação, saúde, lazer e moradia. São nessas feridas que a gente tem que chegar, antes que pessoas mal intencionadas já coloquem o band aid e fica enchendo as pessoas com más ideias, colocando pessoas contra as outras.

Explicar para a classe média alta e emergente (maior eleitor e que realmente ajudou a eleger o presidente) que todos são vítimas da sociedade, não adianta dizer que todos os bandidos são psicopatas vai acabar a violência, mostre isso através de dados reais, incentive a ajudar projetos que estão na periferia e ensinar a forma certa de fazer política. Vale lembrar que muitos desses eleitores foram crianças durante a Ditadura Militar, onde a imprensa era calada (não falava dos dados de violência ou algo do tipo), muitos cresceram vendo os pais e parentes serem vendidos por uma chapa em troca de voto para aquele deputado (a única coisa que o eleitor brasileiro podia votar) e achando que isso é legal ou a família ficou rica por ter tido um cargo de confiança daquele político do Arena.

É uma ativade difícil? Bastante, mas implanta algumas sementes.

Me lembro de Pedro Tostes disse em uma entrevista aqui, que a informação precisa ser divulgada em alto e bom som através da rua, desde uma mensagem na parede até um diálogo com as pessoas. As palavras são os meios mais fáceis de ensinar as pessoas o caminho correto.

Que bom que teve eventos como esse, mas não podemos ficar estacionados apenas nessas atividades!