Meus 40 minutos com Pedro Tostes

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O Brechando trabalha com prosa, mas tenta migrar por todos os movimentos literários através de entrevistas ou permitindo poetas escreverem no site. Quando eu li a sugestão de pauta em que o poeta Pedro Tostes (esta foi a única foto que consegui tirar, pois não parávamos quietos) iria fazer uma tour no Nordeste de ônibus, saindo de São Paulo, eu já gostei logo de cara e rapidamente queria fazer uma matéria com ele. Fui logo pesquisar e vi que é um cara que com as suas próprias mãos, literalmente, tenta divulgar a sua poesia, tanto que rendeu altas aventuras em sua carreira. Perto do feriado de Nossa Senhora Apresentação, o carioca (coloquei paulista inicialmente, mas o mesmo deu um alerta. Achou melhor falar que é um Carioca de São Paulo) Tostes para nas terras natalenses para divulgar o seu mais novo livro “A Casamata de Si”.

Na véspera do lançamento, eu e Tostes conversamos por 40 minutos. Após um acidente de percurso, pois esqueci de falar o local exato da Cooperativa Cultural, a lindíssima livraria que fica dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Como duas pessoas de humanas, a gente não parava de falar e ficava de olho no relógio do gravador o tempo todo. Só não rolou mais papo, porque ele tinha outra entrevista marcada. Assim como muita gente que trabalha com as palavras, Tostes também está em desespero com essa onda conservadora que está cobrindo o território brasileiro, tanto que ele tenta dá um otimismo para aqueles que querem resistir às futuras opressões. Ainda falamos como surgiu a ideia de fazer uma tour andando apenas de busão, embora isso não tenha acontecido pela primeira vez. “Na primeira, eu fui de São Paulo a Salvador de avião e o resto peguei um ônibus”, relatou.

Agora resolveu ser mais ousado. “Assim que acabou o segundo turno e vi que o Bozo ganhou, eu peguei um ônibus para começar a minha luta viajando mesmo”, comentou. Tostes percorreu por todos os estados nordestinos, onde também papeou e conversou com poetas e coletivos espalhados nas terras nordestinas. No nosso bate-papo, também discutimos sobre o futuro das publicações de livros alternativos. Resolvi colocar em forma de ping-pong este texto para mostrar um pouco melhor a fluidez desta entrevista.

Confira:

Quando você começou sua aventura de viajar pelo Nordeste de ônibus?

Comecei a viajar após o resultado do segundo turno das eleições, mas por conta das votações eu resolvi adiar esta ideia e o planejamento era para o meio de outubro e ainda resolvi algumas coisas em São Paulo.  Não ia deixar de votar nesse momento importante. Segurei este projeto enquanto pude e assim que liberei, coloquei o pé na estrada. Neste período que estou em turnê, metade do meu tempo é dormindo em rodoviárias e ônibus. Comecei no dia 29 de outubro e fui para Vitória (ES), Teixeira de Freitas (BA), Porto Seguro (BA), Salvador (BA), Aracaju (SE), Maceió (AL), Recife (PE), Olinda (PE), João Pessoa (PB), Campina Grande (PB) e até chegar em Natal. Estamos vivos, na medida do possível, segurando o corpo como pode.

Esta foi a sua primeira aventura de ônibus?

Não. Há quatro anos tinha feito uma viagem parecida, fui de avião de São Paulo até Salvador. Depois peguei um ônibus seguindo até Fortaleza, foi um pouco mais curta, para lançar o meu livro anterior, “Jardim Minado”. Foi meu primeiro momento de estreitamento com os coletivos de poesia daqui do Nordeste e foi bacana, bastante produtivo. Agora, eu quero fazer uma viagem mais longa, até o São Luís (MA).

Agora passamos por um momento de digressão, quando fui falar sobre a foto dele com o Alex de Souza e pensei que ele tinha ido ao show do Odair José na Paraíba, no qual prontamente disse que não, mas concordamos que ficamos um pouco com inveja do Alex por ter prestigiado o grande cantor da Música Brasileira. Então, eu pergunto como foi a viagem para Paraíba e prontamente responde:

Foi ótimo o lançamento do meu livro lá e conversei bastante com os autores paraibanos, conheci a Ponta do Seixas, o local mais oriental das américas, vi o Farol (de Cabo Branco) e mergulhei sob a bunda do Brasil (risos).

Por falar em bunda, Natal é conhecida por um apelido chamado “Cu de Elefante”, pois se olhar ao mapa do estado, ele tem o formato do animal e a cidade fica bem na região onde fica o rabo. 

Bem embaixo do rabinho mesmo (risos).

É a primeira vez aqui ?

Segunda, na verdade. Eu tenho uma história interessante com o pessoal daqui, pois conheço o pessoal há mais de 10 anos. Em 2005 fui inserido na lista de e-mail de discussão dos Jovens Escribas (selo local) e comecei a conhecer o trabalho dos escritores daqui, como Carlos Fialho, Carito Cavalcanti, Ruy Rocha…Só pisei na cidade mesmo em 2014, onde fui bem recebido e conheci uma menina chamada Regina Azevedo, que na época tinha uns 14 aninhos e sempre trocava ideia sobre poemas na internet, muito boa mesmo, quando vim pela primeira vez fiquei hospedado na casa dela, onde tenho um carinho especial com toda a família. Praticamente minha família natalense.

Adoro a história (nota da entrevistadora após decupar esta entrevista: Tem forma melhor de conduzir a pergunta ?) de quase foi preso no Festival Literário de Paraty, poderiam me contar o ocorrido ?

Em 2009, na Flip, eles tomaram meus livros, pois estava vendendo na rua. Eles estavam reprimindo os poetas de rua e fui o sorteado a ter os livros tomados. Estava vendendo meus livrinhos na praça em uma mesa quando chegou dois seguranças da Flip e fiscais da Prefeitura do Paraty em minha direção, dizendo que a venda do livro era ilegal. Então, tomaram meu livro e fui enquadrado. Porém, a cena chamou atenção e viralizou na internet. Parei no blog do Rodrigo Ciríaco, fiquei conhecido na cidade por conta da situação e até Marcelino Freire tirou sarro da situação dizendo que: “Maconha e cocaína está tudo bem, mas livro é ilegal na feira literária”. A notícia pegou mal para a organização e me chamaram para conversar com os poetas de rua. O produtor da Flip tentando mostrar que o ocorrido foi um erro e tentando me persuadir que estava errado, alegando que não queria transformar a feira em um “evento comercial”.

Após essa afirmação eu comecei a rir da cara do sujeito e disse: “Vem cá, você tem patrocínio de dois bancos, tem loja de souvenirs e livraria oficial…Aí você vem me dizer que eu estou transformando o evento em comerical?”. Então, responde: “Não quero transformar o Festival em uma feira”.  E novamente respondo: “Eu sei como funciona uma feira literária, não montei um estande, estou vendendo o livro apenas de mão em mão e não está nada errado em fazer isso. Acontece desde o período da poesia marginal. Sem contar que o poeta homenageado é Manuel Bandeira também vendia os seus livros desta seguinte forma. Mas se não quiser diálogo, eu vou para tenda da imprensa e vamos discutir sobre a venda de livros”.

Depois disso a organização liberou que vendesse meus livros na praça para mim e os outros poetas.  Depois disso nunca mais fizeram algo parecido com Flip ou outro festival literário que participei direta ou indiretamente.

Fui sorteado na roleta da vida para ser o cara com os livros tomados naquele ano. Isso é um pensamento totalmente burguês, poesia incomoda. Muito rico fica incomodado quando um poeta aparece e tenta convencer as pessoas de ler versos e estrofes. Me lembro que um jornalista do O Globo, em um caderno especial do Flip, até me mencionou, criticando minha abordagem, e disse assim: “Minha poesia não morde: Poetas de Rua Mais Truculentos que Guardadores de Automóveis“.

Nossa! Que homem perigoso!

Sou muito violento e ostensivo, não é mesmo ? Fico forçando as pessoas dizendo: “Compre o livro! Compre o livro! Vai moça! Senão eu vou furar o seu pneu”. Esse comentário do colunista foi descabido, mostra um discurso bastante eleitista, que menospreza o guardador e poeta ao mesmo tempo, mostrando que ele é duplamente preconceituoso. Engraçado que na mesma coluna tinha uma mesma nota dizendo assim: “Simbolistas diziam que a poesia está na cachaça e os concretistas na garrafa”. Quer dizer, o poeta discutindo na mesa de bar está beleza, mas poeta pobre na rua está incomodando.

Esses grupinhos sempre vão existir. O legal é aquele que recebeu ajuda e tem grande apoio da elite e o chato é aquele que consegue as coisas na guerrilha mesmo.

É vai ter sempre essa galera, que está em uma grande editora, tem um bom emprego além de ser escritor ou são ricos de nascença e vive na maior tranquilidade e colocar isso como normal. Mas é uma forma de elitizar a literatura. Sou um cara que incomoda com isso, vou sempre no caminho oposto. Quero desetilizar e tirar o poeta de ser iluminado na torre de marfim e ser de barro, que mostra o seu trabalho na mão do povo.

Engraçado que esses grandes escritores, como Machado de Assis, no século 18, não eram ricos e são os mesmos que hoje a literatura dos festivais e feiras veneram. 

É frequente que um autor que tenha sido maldito em vida, tenha passado fome e todas as dificuldades, e após a sua morte é considerado um ícone da elite. Eles ignoram este passado e vivem as luzes brilhantes deste mercado literário que está se desfazendo, morrendo, assim como o mercado musical.  Estou dando graças a Deus que isso está acontecendo, pois quero que esse sistema literário se rompa, pois estamos vivendo em tempos de horizontalidade. Para essas pessoas é desesperador que a concorrência esteja em pé de igualdade.

Mas essa tentativa de empresários de eleger conservadores no poder, sob o argumento de salvar essas empresas que estão falindo, podem atrasar essa horizontalidade?

Eles podem usar todas as armas possíveis, mas não podem mudar os comportamentos sociais. A horizontalidade é um caminho sem volta, principalmente com o advento da internet. Todos os pensamentos e distribuição de ideias eram definidas por um grupo específico e agora cada vez mais os novos autores e livros são descobertos a partir de um conteúdo divulgado por um youtuber, poetas de Instagram e pessoas que sabem utilizar as redes sociais e as ferramentas da internet para divulgar a literatura nos dias de hoje, criando uma nova forma de fazer mercado. Ou você entende e se adapta a este mundo ou você vai ser atropelado. O (Jair) Bolsonaro (toma posse no dia 1º de janeiro de 2019) pode cortar as políticas de incentivo, bolsas de criação literária, diminuir verba para educação e outras formas de produção cultural, mas as pessoas vão continuar consumindo literatura e novos escritores vão ser criativos e divulgar bons materiais a partir dos materiais que tem por perto.