Quem colocou a suástica no Casarão do Consulado?

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O Consulado é um casarão perto do Buraco da Catita, na Rua das Virgens. É o mais polêmico da cidade, uma vez que uma das salas seu piso tem como estampa a suástica, símbolo do Nazismo, regime totalitário da Alemanha que provocou a Segunda Guerra Mundial. Mas, antes do crescimento do Adolf Hitler este ladrilho já estava nas terras natalenses.

Vale lembrar que boa parte da elite natalense se simpatizava com os regimes totalitários da Europa, como já falamos por aqui. A foto acima do título é do fotojornalista Candindé Soares da fachada, porém o piso famoso, porquanto, é esse daqui.

Mas, por que fizeram uma casa de suástica? Vamos explicar esta história a seguir.

Culpa de um cônsul italiano

Uma centenária casa pertencia ao italiano Guglielmo Lettieri,  onde fez fortuna. Vendeu desde ferro velho, bens e utensílios no interior do Estado, até gelo, uma vez que o natalense nem sequer possuía geladeira.

Fundou a Cantina Lettieri na década de 30. Líder da comunidade italiana na cidade, recebeu nesta casa em 1928 os aviadores transatlânticos Arturo Ferrarin e Carlo Del Prette, e em 1931 o General Italo Balbo.

Em 1938, Guglielmo foi nomeado cônsul da Itália no Rio Grande do Norte, e foi daí que nasceu um dos aspectos. Um trecho da casa tem piso formado por ladrilhos representando a cruz suástica, que ficou associado ao símbolo nazista.

Casarão ainda nos tempos das antigas
Casarão ainda nos tempos das antigas (Foto: Facebook)

A simpatia do italiano por Benito Mussolini (líder do fascismo na Itália) e Adolf Hitler (do nazismo na Alemanha) fez com que ficasse preso em 25 de junho de 1942, como resultado o puniram pelo crime de espionagem em 22 de dezembro a 14 anos de prisão pelo Tribunal de Segurança Nacional.

Achamos o processo e você pode clicar aqui para saber mais o que houve. 

Apesar da pena, o italiano foi anistiado ao fim da 2ª Guerra Mundial. Após a sua morte, em 1957, a família vendeu o imóvel à Bolsa de Valores do Rio Grande do Norte que tampou os ladrilhos com bastante tinta, visto que o símbolo até hoje é mal visto.

Quando ele construiu

Essa história começa em 1897, quando Guglielmo Lettieri viajou ao Brasil pelo porto do Rio de Janeiro, aos 10 anos. Entretanto, a família logo voltou à pátria italiana, embora o menino retornara aos trópicos brazucas após o fascínio infantil já aos 16 anos, em 1903. Inicialmente o destino era Recife, onde se iniciou na atividade do comércio. Como resultado casou na capital pernambucana, mas logo adotou Natal como morada com os filhos.

Não se sabe ao certo a data de chegada. A estimativa é próximo de 1910, uma vez que a gestão do Estado era no governo de Alberto Maranhão.

Militares americanos foi quem descobriram as suásticas no casarão

Em 1939, Guglielmo foi convocado pelo Consulado Italiano em Recife, visto que mantinha estreita ligação, a prestar informações. Ele passava telegramas secretos a Recife. Isso até 1941, quando a base norte-americana monitorou todos os passos do italiano.

Foi neste período que descobriu não são os ladrilhos nazistas, mas também de que informara aos integrantes do Eixo. Ficou recluso pouco mais de dois anos no campo de concentração onde hoje funciona a Escola Agrícola de Jundiaí, junto com outros presos da guerra. Ao cônsul italiano foi reservada sela especial, uma espécie de casa térrea, simples, com empregada à disposição e galinhas soltas no quintal.

A notícia da prisão transformou o sobrado onde o italiano morava com a família em alvo de hostilidades de natalenses empolgados com a presença norte-americana na província. Até a prisão, Guglielmo era comerciante influente na cidade.

Guglielmo foi pego pelo sistema de investigação por um ilustre policial: J. Edgar Hoover.

A Cantina Lettieri continuou

O filho de Guglielmo, Galileu, continuou atuando na Cantina Lettieri, que saiu da Ribeira e funcionou na avenida Rio Branco, em Natal no final da década de 80. Tinha em seu catálogo de produto as bebidas finas, frios, sortidos, frutas e alimentos em conserva. Além disso, tinha um armazém na Rua Chile e fabricava vassouras da marca Leque, que fica escola de balé do Teatro Alberto Maranhão (TAM).

O restaurante Consulado

Muitos poderiam ter destruído o ladrilho nazista do Consulado, mas não fizeram. Então, uma dupla resolveu em meados dos anos 2000 abrir um bar naquela região. O local agora é aberto para almoço no modo self-service.

Os polêmicos ladrilhos (Foto: Tribuna do Norte)
Os polêmicos ladrilhos (Foto: Tribuna do Norte)

O bar/restaurante ocupa todo o térreo da casa, entre sala, corredor e quintal. O tempo entre a reforma e adaptação para receber a estrutura do bar foi de cinco meses.

A parte de fiação elétrica foi toda feita externamente, para não esburacar as paredes. As partes em madeira entalhada foram lixadas, envernizadas e receberam cera de carnaúba. Os belos afrescos florais nas paredes foram, portanto, limpos. A polêmica sala com ladrilhos de suásticas está visível para todo mundo ver, sendo que cobertos por carpetes.