Primo Rico: li o livro de Coach e isso é perigoso

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Já ouviu falar do Primo Rico? Todo mundo tem um, não é mesmo? Na verdade, eu estou falando de um rapaz que se identifica como Primo Rico, um dos maiores coaches sobre economia. Uma das promessas de 2020 foi ler um livro de coach para ter certeza de que aquilo era ruim. Sempre que ouvia um coach em entrevista ou meu primo gastando rios de dinheiro para ser um, eu ficava olhando torto.

A moda do momento é investir dinheiro da Bolsa de Valores e conhecer o Trending. Educação financeira está em moda pelo os vários motivos:

1. Desde 2009 estamos em crise financeira e o aumento do desemprego fez com que muita gente se segurasse com o dinheiro enquanto as coisas estão ruim.

2. Você pode está numa faculdade tapa de cuscuzeira que o desemprego chega.

3. As pessoas estão vendo que os bancos estão taxando mais coisas e a poupança não estava rendendo.

Foi neste momento que um galego jovem falou nas redes sociais que conseguiu ficar milionário e criou um canal de blog e canal do You Tube chamado de “Primo Rico”. Boa pinta e bem-sucedido, suas redes sociais mostram as coisas boas na vida.

Isso faz com que um milennial olha e diga: “Quero ser esse homem”. O sucesso dele é tão grande que ele lançou um livro chamado “Do Mil ao Milhão”, no qual prometia ajudar.

Comprei o livro?

Recentemente, uma amiga minha, a Taís Gurgel, deixou o endereço de casa para receber livros da Amazon enquanto estava na quarentena e eu li. Digo mais: Jovens, ele sabe fazer uma propaganda como ninguém.

E vou explicar em tópicos, assim como ele fez na sua obra bibliográfica, o porquê estou falando disso. Confira!

Como é o livro

O livro é rápido de ler e tem 220 páginas. A rapidez se dá pela simples organização do livro, cuja intenção é fazer com que o empresário seja a influência na Educação Financeira e utilizando a técnica de escaneabilidade para que o leitor possa achar as respostas de suas dúvidas sem alguma dificuldade.

A obra é dividida em três partes que fala sobre o seu início da área, os termos econômicos e, por fim, a parte marqueteira da coisa.  Além disso, tudo está em esquemas facilitando a sua vida, principalmente para quem não tem costume de ler muitos livros e tirando a ideia de que auto-ajuda é algo chato.

Essa técnica é bastante utilizada no Marketing de Conteúdo, chamada de Copywrite, no qual uma marca cria conteúdos para tirar dúvidas dos consumidores e a medida que esses conteúdos são consumidos, mais chance de criar uma relação e assim ofertar um produto de forma sútil e sem ser um spam chato por aí.

É uma tendência que está cada vez mais comum no Marketing Digital e traz resultados positivos, principalmente agora no período de pandemia.

Copywrite

O Copywrite é uma técnica que sou especialista pela Rock Content, tenho realmente lugar de fala para falar sobre o assunto. Sem contar que na área de social media onde trabalho sou uma das responsáveis pelos textos de algumas empresas potiguares e influencers, no qual eu planejo e organizo como um texto se encaixa melhor no Instagram para conquistar os clientes. E você achando que social media fazia apenas arte, texto e programava nas redes sociais? Embora em algumas agências de publicidade tenha um profissional que faça tudo isso, alguns lugares existe uma divisão, com o objetivo de fornecer melhor resultado ao cliente.

Este texto mistura a redação publicitária com o jornalismo, no qual além de informar os clientes em potencial é uma forma de criar laços com os seus clientes. É uma técnica dentro do Marketing de Conteúdo que está dentro do Inbound Marketing, que cria mecanismos para atrair os clientes na jornada de compras.

Isso não é nada demais, principalmente porque o CNPJ precisa honrar sua marca e valores não só dentro do espaço físico da empresa, mas também no ambiente virtual. O problema que existem marcas que utilizam uma suposta pessoa física (na verdade, ele é um MEI ou ME) para divulgar o seu produto.

Este é o problema de Tiago Nigro, ele é uma empresa contratada por outras empresas relacionadas ao mercado financeiro.

“Mas, Lara, tu vai levar processo com isso”.  Não vou, porque ele deixa rastros, principalmente pelo fato do livro colocar todo texto neste estilo. A intenção do Tiago é criar uma solução financeira para o leitor, elabora teorias com o seu próprio nome e monta todo um caminho até o final, que é oferecer os produtos que ele utilizou para supostamente investiu e conseguiu supostamente o seu primeiro milhão de reais.

Brand persona

Na terceira parte do livro, o Primo Rico fala a importância do Marketing e é um dos maiores incentivadores a pessoa criar o seu próprio marketing, seguindo o conceito de brand persona. Trata-se de um personagem que representa o tom de uma marca, a linguagem e o “estilo” da mesma, o marketing de influência está intimamente ligado à este conceito.

Até aí não tem nada demais. Uma das coisas que ele mais defendeu foi: Se você não conseguir aumento e está insatisfeito com o emprego, você pode sair e criar sua própria empresa. O problema é dizer que existe uma fórmula pronta e sabemos que a população brasileira é diferente. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),  são  mais de 50% dos brasileiros trabalhando mais de 48 horas semanais, lembrando que a Consolidação de Leis Trabalhistas (CLT), determina que a pessoa trabalhe até 8 horas por dia.

Sem contar que o rendimento médio do brasileiro é de 2163 reais. Ou seja, dois salários mínimos, sendo que as pessoas que recebem mais de 2 salários mínimos, 4153 trabalham sem carteira.

Além disso, apenas 0,7% que trabalha por conta própria e 2,5% da população são trabalhadores domésticos com carteira assinada. Você vai convencer a tia Fátima da limpeza de parar de fazer faxina para ganhar dinheiro no Instagram? Você já contou para ela que essa grana é a longo prazo e ela precisa comer amanhã? Sabe quando o Jovem Nerd largou tudo para viver do site? Depois que cinco anos estava no ar.

O PC Siqueira demorou anos para largar seu emprego de colorista para viver apenas do You Tube. Cuidado, as coisas têm que começar aos pouquinhos.

Vale pena em alguma coisa

Para quem não entende nenhuma palavra de economia, ele é um ótimo caminho para seguir. Entretanto, o Tiago nasceu em um conceito totalmente diferente de muitos brasileiros e para alguns este caminho é mais longo que o dele. Além disso, ele trabalhou em importantes empresas financeiras, como a XP Investimentos. Tem seu forte marketing digital, no qual tem blog empresarial, portal de notícias sobre o mercado financeiro e ganha dinheiro não só com as ações de seus clientes, mas também dos canais do You Tube e através do Adsense.

Você dizer para uma pessoa que mora no Passo da Pátria que é só largar o emprego e montar uma conta no Instagram e investir o seu dinheiro é algo muito perigoso, pois é uma realidade totalmente diferente da zona Sul de São Paulo.

O que Alexandrismo e Primo Rico têm em comum

Alexandra Gurgel é uma digital influencer conhecida pelo canal Alexandrismos e uma das importantes vozes do Corpo Livre. Apesar de mostrar que uma pessoa gordinha pode fazer o que quiser, inclusive usar um biquini pequeno, o seu discurso ainda é bastante raso, visto que o corpo gordo não é apenas utilizar roupas plus size ou rebolar para dizer que está tudo bem, mas também falta de acesso à equipamentos públicos, ser excluído nos relacionamentos afetivos (não estou falando apenas de namorados), serem destratadas nos atendimentos médicos sem algum motivo e infelizmente muitas sofrem distúrbios alimentares e psicológicos para serem aceitas numa sociedade em que valoriza uma revista de saúde com fotos recheadas no filtro de Liquify, inclusive em fotos de modelos plus size.

E olhe que não estou falando da história do nugget ou incentivar uma filha bulímica em ler seu livro de auto-ajuda.  Se você olhar por trás dos discursos feitos na página de Alexandra, você verá que existe uma indústria sobre a marca Plus Size . Desde roupas até maquiagem. Querem dizer que todo corpo gordo é igual e todo mundo sabe que a nossa silhueta é única.

Cadê o Corpo Livre e Educação Financeira no Poder Público?

Além disso,  raramente você ver a Alexandra indo ao Poder Público para criar leis de acessibilidade aos gordos ou procurar uma vaga de emprego para essas pessoas.

A mesma quer criar uma ideia padrão de algo que está aquém da realidade dos gordos brasileiros.

O Primo Rico segue esta mesma temática sendo para pessoas que desejam uma Educação Financeira. Enfatizar que trabalhar no Outback foi algo super importante na vida dele é louvável, melhor do que trabalhar na empresa dos pais, mas dizer que começou a trabalhar por estar na pindaíba e na miséria e duas páginas anteriores falou dos cinco mil reais que ganhou dos pais é uma intensa contradição.

Sem contar que o incentivo à educação financeira nas suas redes sociais é valorizando a exceção e não a regra, algo que é perigoso numa sociedade que está consumindo aos poucos a internet. Ele defende de forma superficial a educação financeira nas escolas, mas nunca propôs em colocar isso em projetos de leis ou campanhas para escolas públicas, por exemplo.

Palavras finais

Ao ler o livro, ele é um ótimo começo para entender termos econômicos que a Valor Econômico e Miriam Leitão adoram complicar na imprensa, como CDB, Taxa Selic e dentre outras coisas. Entretanto, você precisa entender que Tiago teve acesso às melhores escolas e vive numa família de classe média alta, no qual tem acesso mais fácil ter o dinheiro salvo, visto que sempre vai ter uma ajuda para lhe salvar de seus apuros.

Infelizmente, muitos brasileiros não têm essa escolha, pois muitas pessoas não podem pedir demissão, pois sem esse salário não sobrevive para manter a família. Tanto que existem brasileiros que estão arriscando a sua vida nesta pandemia para poder sustentar a família, conforme fala nesta coluna do Brasil de Fato.

Por isso, você tem que entender que por trás de Tiago Nigro existem patrocinadores para que continue a divulgar os seus produtos, como a XP Investimentos, no qual foi sócio, a Rico, que agora é sócio, e outras empresas que estão relacionadas ao mercado financeiro.

Última lição

O Marketing de Conteúdo está aí, sendo uma moeda de troca entre o consumidor e empresas. Portanto, se você quer saber se ele é um bom influenciador responda essas seguintes perguntas:

1. Ele condiz com minha realidade ?

2. Qual conteúdo posso aproveitar ?

3. Posso questionar quando ele comete erros?

4. Estou cometendo loucuras para seguir este estilo de vida?

O erro não é consumir os influencers, mas você ficar doente ou arriscar sua vida para seguir o que eles expõe. Relaxe e siga o seu ritmo.

Veja este texto de Greg News sobre coach: