Camila e Júlia: amigas que usam documentário para arte

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Antes de falar dessas duas lindezas, preciso falar como as conheci. A especialização de documentário caiu na minha vida como um paraquedas. Primeiramente, eu estava desiludida com o audiovisual, após meu documentário “Lá Pro Gringo’s” não ser aceito em algum festival. Julgava que o problema era comigo (talvez era). Fui ao show do Against me, um dos últimos dentro do Dosol na Ribeira e o professor Ruy Rocha na calçada do Ateliê, onde tava acontecendo outro festival, conseguiu me convencer que valeria a pena me inscrever. Passei na seletiva e as aulas começaram na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Como conheci às duas durante as aulas

A Camila Guerra, a de cabelo mais escuro, conhecera de longe, visto que ela estudou na mesma escola que eu. Era amiga de alguns  dos meus amigos, mas só era um crush de amizade, porém via que aquela cabecinha era uma explosão de criatividade. Tanto que ela migrou para as artes. Inicialmente, no teatro e depois na especialização em documentário.

Já a Julia Donati, do cabelinho mais curto, me aproximei mais rápido, mesmo sendo um pouco mais tímida, mas se você conversar sobre arte e design, você vai ver ela falando com uma empolgação tão grande, falando do seu trabalho como tatuadora, fotógrafa, artista visual e rapidamente cativa.

Esforço e interesse impulsionaram a ter obras em festivais

O que ambas têm comum e se uniram como a fusão do Dragon Ball Z? Elas eram esforçadas, sempre anotavam tudo que os professores falavam, tiravam dúvidas e sempre tinham ideias legais. Foi assim que comecei a ficar próxima das duas e entrar na onda das suas ideias e maluquices. Às vezes as acalmava quando algo não dava certo. Nós três fizemos dois mini-documentários super legais, o Líricas e A Procura de Som Eu Encontrei Lixo.

Agora, elas estão mostrando que são PRODUTORAS AUDIOVISUAIS com todas as letras garrafais, pois os seus trabalhos estão no Ocupação Ovárias, evento online que mostra a produção de mulheres no audiovisual e na arte. A Camila Guerra exibirá “Pequena Flor de Ameixa: um Fragmento” e Júlia Donati com “Planta Carne”. A exibição será neste domingo (6), às 18 horas, no site da Ocupação. Acompanhe a entrevista que o Brechando fez com as duas.

Sobre a Pequena Flor de Ameixa: um Fragmento

Camila é uma praticante de Kung-Fu. Sentia falta de um espaço para falar sobre a participação feminina na arte marcial. “Eu coloquei no título este nome porque é realmente um pedaço de um projeto maior de um documentário chamado Pequena Flor de Ameixa. É voltado para o processo de empoderamento de mulheres que praticam o Kung-Fu em Natal”.

O curta mostra um bate-papo com Isadora, uma das praticantes do esporte na cidade, que estava se preparando para o exame de faixa preta.

Foco no Documentário e o seu amor pelo estilo

“A linguagem do audiovisual que mais consumo é o documentário. Eu amo documentário. Essa ideia surgiu a partir da minha vivência, sempre admirei as mulheres que praticam. Neste período eu descobri que podia fazer coisas incríveis com o meu próprio corpo. Por isso, eu resolvi compartilhar o que sinto e essa foi a forma que achei”, comentou.

Camila Guerra no processo de produção (Fonte: Instagram)

De acordo com Camila, o processo de criação do documentário surgiu, portanto, na Especialização em Documentário. Além disso, as gravações surgiram em novembro do ano passado, no qual Camila acompanhou todo o processo de preparação de Isadora para conseguir a tão sonhada faixa preta.

Sobre o processo criativo, Camila contou com uma equipe que topou em colaborar para colocar o projeto para frente e ter resultados tão positivos. “Esse processo foi muito criativo e colaborativo. Me ajudou na evolução do meu trabalho como diretor e roteirista. Também estou feliz de ter pessoas para colaborar, porque nada disso iria para frente. É um projeto que vai dar mais frutos e pretendemos fazer outros documentários [falando sobre Kung-Fu].”.

Dentre as colaborações citadas por Camila está a própria Júlia, que participou do processo de gravação como diretora de fotografia. “Acredito que uma dica para as mulheres a continuar a produzir é consumir trabalho feito por outras mulheres. Isso é muito importante! Se a gente abre a mente para ouvir o trabalho de outras mulheres é uma forma de ajudar e apoiar a mulherada a continuar com os seus respectivos trabalhos”, relatou.

E o próximo passo?

Para a Camila Guerra, ela pensa em produzir outras produções, mas o seu foco é documentário e a sua liberdade no roteiro e o imprevisível. “Um dos meus favoritos na gravação foi o momento que não estava sendo planejado. Porém, surgiu de forma espontânea. A gente conseguiu registrar e que conversa sobre as mulheres no modo geral, com o ser mulher. É super importante momentos assim. Isso que eu quero continuar”

“Planta Carne”, por Júlia Donati

Planta Carne é o nome artístico de Júlia. Por conseguinte é a sua vestimenta ao se expressar tanto nas artes visuais quanto no documentário. No meio de suas inquietações na quarentena, ela resolveu fazer um curta de três minutos para mostrar todo o seu processo criativo. No filme, a artista desvenda a própria arte através da relação com o universo e se descobre gradualmente enquanto artista em relação íntima com a natureza.

Júlia durante o protesto contra os cortes da educação (Fonte: Instagram)

De acordo com Donati, ela queria produzir algo neste período de isolamento social, visto queria registrar a sua reação com os acontecimentos da pandemia do novo coronavírus. “Desde os primeiros dias, eu estava pensando que forma faria isso. Mais ou menos no segundo ou terceiro mês surgiu editais que estimulavam esse tipo de produção em casa. Aí veio a ideia de não só me documentar neste período, mas também falar sobre o meu processo criativo e como tenho me descoberto. É um processo de autoconhecimento”, relatou.

Para a idealizadora, o Planta Carne foi uma forma de traduzir os seus sentimentos sobre a situação e de como ela se expressa como uma pessoa criativa. “Fiz em pouco tempo, uma semana, por causa do tempo para submeter no edital. Portanto, eu mergulhei de cabeça nesse universo documental e passei uma semana me gravando em várias situações, que achava relevante”.

Produção feita em uma semana

A Júlia descreve que a maior dificuldade na sua videoarte foi ter poucos recursos, porque teve que fazer o trabalho em pouco tempo, porém como tinha o conceito de forma concreta em sua mente o desenvolvimento do trabalho fluiu. “Foi bastante instintivo, criando e montando para saber o que queria no curta. Cada vez que vejo este curta, mais eu me descubro e, por isso, que acho esse processo de autoconhecimento tão importante. Tenho recebido esse feedback com outras pessoas, isso é bem interessante”.

Donati ficou brincando ao dizer que o tripé foi um instrumento importante nas filmagens, visto que muitos registros só conseguiram ser enquadrados graças ao instrumento. Sobre o próximo passo, a artista comenta que pretende experimentar outras formas do audiovisual, além do documentário.

“O ramo do audiovisual é muito extenso e interessante, tem muitas áreas para você descobrir. Eu tenho descoberto demais, o curso que fiz na UFRN, a pós-graduação, uma vez que contribuiu muito para eu entender como artista e nesse conceito de criação em grupo. O ramo do audiovisual proporciona troca de experiência com muitas pessoas e em suas narrativas”, comentou.

Deixe a sua criatividade fluir

Esse foi o lema de Júlia para continuar a produzir, mesmo que estejamos presos em casa por conta de uma pandemia. Sabe aquele ditado “O Ócio Estimula a Criatividade?”, esse lema cai tanto para Júlia quanto para Camila. “Tente buscar algumas narrativas no nosso dia a dia, pode ser uma simples conversa entre os parentes ou um diálogo com algum amigo. Isso pode surgir uma produção audiovisual, um livro ou qualquer coisa criativa. Se for para dar uma dica, a minha é: Observe. Essa observação é muito importante para entender o seu processo criativo.”.

Sobre a Ocupação Ovárias

É uma ocupação artística idealizada e organizada por mulheres, visto que o seu objetivo é fornecer um espaço para que outras mulheres possam expor seus trabalhos em diversos segmentos artísticos. Essa é a 5ª edição do evento e conta com mais de 100 projetos. O grupo abre financiamento coletivo para arrecadar recursos para movimentos sociais cujo foco do trabalho seja a mulher.

A exibição do filme será, portanto, neste domingo (6) às 18h, no site ocupacaoovarias.com.br .