Congos de Saiote e o audiodocumentário de 78

Compartilhe:

O Rio Grande do Norte tem algumas raridades, uma delas deixadas em produções fonográficas. Olhando discos da cidade, descobrimos um compacto que conta a história dos Congos de Saiote, um tradicional grupo folclórico de São Gonçalo do Amarante, que hoje está extinto.

Recebe o nome de Saiote, porque os brincantes usavam saias em suas apresentações.

O Congo é uma prática africana que foi adaptada no Brasil e reúne não só elementos temáticos africanos, mais precisamente na região do Congo, mas também de tradições portuguesas e espanholas, cuja difusão vem do século XVII. Lá, eles misturam danças de guerra com cantigas. Em São Gonçalo, existe o grupo Congos de Rabeca ou Congos de Calçola (foto acima do título), que fica no distrito de Santo Antônio do Potengi, que ao contrário dos Saiotes, eles usam calça.

Congos de Saiote Congos de Saiote na capa do Compacto

O projeto faz parte de um conjunto de documentários chamado “Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro”, que mostrava uma coleção de discos falando do folclore de cada estado brasileiro.

Coleção de discos de Folclore

O pesquisador Deífilo Gurgel participou da elaboração do produto, que foi gravado em 1977 no estúdio da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e só foi divulgado no ano seguinte.  A contra-capa foi assinada pelo próprio folclorista, que descreveu um pouco sobre o Congos de Saiote, que pode ser lida a seguir:

Os Congos são um dos quatro mais importantes autos populares brasileiros. Drama e bailado, o núcleo central do folguedo, hoje, infelizmente, mutilado e descaracterizado pelos anos, representa uma embaixada da rainha Ginga, “soberana do Dongo, de Matamba e de Luanda”, a dão Henrique Carlongo, rei do Congo, no qual se misturam canto, dança, simulação de combates, arengas diplomáticas. Este entrecho dramático é precedido das mais variadas cantigas: dobrados guerreiros, benditos da igreja, louvações aos oragos da raça ou santos padroeiros locais: São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e, ainda, de outras, das mais diversas procedências, algumas denunciando visível influência africana, pela presença de vocábulos de origem negra. Neste emaranhado de cantigas, não é fácil selecionar as melhores, para divulgação. Todas são melhores, puras e de uma beleza melódico-poética comovedora. “Nossa Rainha veste a saia principá/ para vê os mariante quando vem desembarcá.”. No Rio Grande do Norte, existem dois modelos de Congos: os Congos de Saiote, também chamados de Rabeca ou de Combate, e os Congos de Caiçolá, de Caixa ou de Guerra, nomes que derivam da indumentária, do acompanhamento musical ou do estilo de apresentação de cada grupo. As músicas destes discos foram selecionadas do repertório de antigas da cidade de São Gonçalo do Amarante (RN) que obedecem à orientação do “Embaixador” João Menino.

O João Menino citado por Deífilo era o  João Fábio Bandeira, considerado o primeiro mestre de congo do município de São Gonçalo do Amarante. Nasceu em Uruaçú, no inicio do século XX e faleceu no dia 23 de Junho de 1978, com mais de 70 anos de idade.  

Depois a tradição passou para Mestre Sérvulo Teixeira de Moura, nascido no Sítio Breu em São Gonçalo do Amarante no dia 10 de dezembro do ano de 1927, o mestre iniciou sua vida artística aos 12 anos. Depois da morte de João Menino, na década 70, o Sérvulo Teixeira puxou a responsabilidade para si e se tornou o Mestre mais importante do município preservando a congada e as atividades culturais até os últimos dias de sua vida, onde repassou seus saberes. Tendo como foco as novas gerações. Mestre Sérvulo faleceu em julho de 2013.

Mas, por que o saiote foi extinto? Em entrevista ao Anote RN, o Mestre Sérvulo falou que a causa foi uma apresentação na Cidade Alta, onde estudantes levantaram a saia de um dos integrantes, o deixando nu em praça pública. “Eles tudo rente ao palanque. Aí nós lá se apresentando e quando viram que João Mãozinha tava sem cueca, tiraram o coro dele”. Pouco depois do episódio, mestre João Menino morreria. “O Congo de Saiote passou um a dois anos parado, aí eu assumi e num quis mais esse negócio de saiote não. Doutor Deífilo aconselhou eu permanecer, mas num quis não. Muitos, principalmente os meninos, não queriam vestir”, disse.

O compacto completo pode ser ouvido na íntegra a seguir: