Dia que o compositor Pixinguinha veio à Natal

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Pixiguinha veio à Natal e essa é uma lenda que todo boêmio conta quando pisa no Beco da Lama, no bairro de Cidade Alta. Mas será que existiu algum registro? O que ele foi fazer em Natal? São muitas perguntas que estão sem respostas.

Pixinguinha era filho do músico Alfredo da Rocha Vianna, funcionário dos correios, flautista e que possuía uma grande coleção de partituras de choros antigos. Aprendeu música em casa, fazendo parte de uma família com vários irmãos músicos, entre eles o China, no qual ajudou bastante o músico e lhe introduziu na carreira musical. Aos 12 anos começou a trabalhar como flautista titular na orquestra da sala de projeção do Cine Rio Branco. Nos anos seguintes continuou atuando em salas de cinema, ranchos carnavalescos, casas noturnas e no teatro de revista.

Sete anos depois formou o grupo Oito batutas, onde divulgou o choro em vários cantos do mundo, como Paris, na França. Em 1929, criou com Donga a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, conjunto composto só de instrumentos de sopro, que lançou logo três discos pela Parlophon com os choros “Lamento”, “Amigo do povo” e “Carinhoso”, de sua autoria desde 1916; o samba “Os teus beijos”, de Felisberto Martins e o maxixe “Não diga não”, de Peri, além de acompanhar gravações de Benício Barbosa.

Quando compôs “Carinhoso”, entre 1916 e 1917 e “Lamentos” em 1928, que são considerados alguns dos choros mais famosos, Pixinguinha foi criticado e essas composições foram consideradas como tendo uma inaceitável influência do jazz, enquanto hoje em dia podem ser vistas como avançadas demais para a época.

Ainda em 1929, foi inaugurada no Rio de Janeiro a RCA Victor Talking Machine Company of Brazil. A empresa promoveu concurso para orquestrador, no qual ele se inscreveu com uma orquestração de “Carinhoso”, obtendo o primeiro lugar. Foi assim contratado como músico e arranjador exclusivo da Victor. “Carinhoso” foi ainda utilizada como fundo musical no filme “Acabaram-se os otários”, de Luís de Barros. Também no mesmo não, gravou em solo de flauta pela Victor os choros “Aguenta Seu Fulgêncio” e “Segura ele”, de sua autoria.

Passou a reger a Orquestra Victor Brasileira com a qual gravou ainda em 1929 os choros “Vem cá, não vou!”, “Urubatan” e “Carinhoso”, de sua autoria. Como regente da orquestra Victor Brasileira acompanhou gravações de diversos artistas, entre os quais, Jaime Vogeler, Breno Ferreira, Artur Costa; Josué de Barros; Sílvio Salema; Albênzio Perrone; Sílvio Caldas; Jesy Barbosa; Carmen Miranda; Elisa Coelho; Gastão Formenti e Almirante.

Após anos trabalhando com a música erudita, ele começou a ser chamado a participar de vários eventos relacionados à música. Uma viagem que ele fez na década de 60 foi para capital do Rio Grande do Norte, no ano de 1969, onde pisou no Bar do Nazi, no Beco da Lama, local onde tem a tradicional meladinha, feita com cachaça e mel. Hoje, o Bar do Nazi se chama Bar da Meladinha e tem uma placa registrando o dia e a data em que o músico pisou naquele local.

Infelizmente, não há muitos registros de sua vinda para Natal e muito menos os objetivos, mas só se sabe que ele aproveitou bem a boêmia potiguar.

Detalhe que cinco anos antes, em 1964, sofreu um forte edema pulmonar. Na ocasião, assim reportou o jornal O Globo, em sua edição de 26 de junho daquele ano: “Edema pulmonar agudo levou o músico e compositor Pixinguinha a internar-se ontem à tarde no Hospital Getúlio Vargas, onde, após ser submetido a sangria, foi posto em tenda de oxigênio. Embora seja grave o seu estado, já apresentava melhorias à noite, sempre assistido pelo filho, Alfredinho. Pixinguinha tem 66 anos, 42 dos quais dedicou à música”. Depois de submetido a uma sangria e ser colocado por cerca de cinco horas no balão de oxigênio, foi transferido, no dia seguinte para o Instituto de Cardiologia Aloísio de Castro.

Pelo período de dois anos, afastou-se das atividades artísticas. Um mês depois, o mesmo jornal publicou a seguinte nota “Um check-up a que será submetido hoje pelo seu médico assistente, Dr. Ernâni Trota, dará a Pixinguinha o direito de deixar o Instituto de Cardiologia, onde está internado há mais de um mês, e marcará sua volta ao saxofone e ao Bar Gouveia, onde, há muitos anos, reúne-se diariamente com Donga e outros companheiros da velha guarda”.

Em 1966, foi um dos primeiros a registrar depoimento para a posteridade no Museu da Imagem e do Som. Em 1967, recebeu a Ordem de Comendador do Clube de Jazz e Bossa, dirigido por Ricardo Cravo Albin e Jorge Guinle, além do Diploma da Ordem do Mérito do Trabalho, conferido pelo Presidente da República e o 5º lugar no II Festival Internacional da Canção, onde concorreu com o choro “Fala baixinho”, feito em parceria com Hermínio B. de Carvalho.

Em comemoração a seus 70 anos, o Conselho de Música Popular fez realizar uma exposição retrospectiva no Museu da Imagem e do Som, instituição que promoveu concerto realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no qual tomaram parte Jacob do Bandolim, Radamés Gnattali e o conjunto Época de Ouro, e do qual resultaria um LP editado pelo MIS. Em 1972, sua esposa faleceu, fato que lhe abalou profundamente. Nesse mesmo ano, passou a receber aposentadoria pelo INPS, que lhe atenuou os problemas financeiros.

Pixinguinha passou os últimos anos de sua vida em Ramos, bairro que adorava, e morreu na igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, quando passou mal em uma cerimônia de batismo. Foi enterrado no Cemitério de Inhaúma.