O Menino e o Fantasma

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“Fazendo um pouco diferente do que o normal, vamos colocar textos fora do gênero jornalístico. O menino e o fantasma” é um texto construído pelo escritor potiguar Murilo Zatu, nosso colaborador do Brechando e no qual vocês podem conferir a história, com elementos genuinamente da terrinha, por aqui:

Menino: tem alguém aí?

Fantasma: boo!

Os olhos do Menino saltaram, mas logo sorriram ao verem que era apenas o Fantasma.

Menino: meu Deus! Quanto tempo! Posso saber por onde esteve voando durante esse tempo todo?

Fantasma: bem, menininho… Vários lugares! Estive três dias numa fazenda em Pau dos Ferros, pra assustar três patricinhas que estavam passando o fim de semana por lá. Também estive mais de duas semanas no quarto de uma madame que só chorava no telefone, bebia whisky e ouvia repetidamente as canções de Billie Holiday. Ela não me ouvia, nem me via, mas sentia minha presença e justamente por isso fui pra lá, apenas como uma companhia, uma presença íntima e fria.

Menino: quanta história! Agora está aqui outra vez!

Fantasma: sou muito fiel com minhas crianças! Aposto que você também perambulou solto por aí durante esse tempo, não foi?

O Menino estampou no rosto aquele aspecto risonho. Fez cara de desentendido, mas quando o Fantasma espelhou sua expressão, enfim cedeu…

Menino: sim, sim…! Se eu te contar que semana passada fui em Pipa outra vez? Já fazia mais de 1 ano desde a última vez que eu tinha ido… Da última vez fui com a alma em quebranto, dessa vez ela estava em regozijo! Parecia uma ciranda louca… Eu e meus delírios!

Fantasma: hahahahahaha.

Menino: Hihihihihi… Fui eu e alguns amigos… Eu tinha jurado que não seria rebelde outra vez, mas enchi meu cálice de licor até o transbordamento… Fui diversas vezes fazer xixi no poste, estava disperso, mas devem ter visto e fofocado da minha imprudência! Até eu faria… Acho vergonhoso fazer xixi na rua, mas do ano passado pra cá parece que fiquei com uma certa incontinência urinária…

Fantasma: já foi ao médico?

Menino: fui sim, mas saí sem relatar isso! Só reclamei da minha perda de peso, da minha dificuldade em ganhar peso, das minhas aventuras insensatas, exames de sangue, terapia…

O Menino quando começa, não para de falar! Dá vontade de gritar “cala essa matraca, menino!”, mas ele pode chorar e quando começa, não para! Ouvindo suas histórias dá pra olhar pra ele e fingir entendimento enquanto pensamos na janta ou na roupa que iremos usar amanhã no casamento da vizinha. Agora inventa de fazer ele chorar…

Fantasma: contador de estórias!

Menino: amo! Hihihihihi.

Fantasma: vejo que a noite será longa…

Menino: uma criança!

Fantasma: se formos até o rio, sentar naquela pedra grande… Tem uns sapos por lá também com suas cantigas e também ouvi dizer que a Sereia está de namoro com um caboclo que veio cortar umas árvores pro vizinho, talvez estejam por lá trocando carícias… Sem falar da lua que míngua sem escândalo! Será que nossas estórias teriam ouvidos nesse luar?

Menino: não tenho dúvidas! Quanta fantasia no meu quintal! Vamos!