O dia que não teve Natal

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Natal lá em casa é quase uma propaganda de Coca-Cola, sendo que sem a neve e troca o refrigerante por bebida alcoólica, onde todos os parentes dos dois lados da família se juntam, confraternizam e ainda comemora o aniversário da minha mãe. Toda vida que compartillhado a festa nas redes sociais, o comentário é: “Quero ficar bêbado no Natal da sua família”. Claro que tomo como elogio, porque isso é sinônimo de alegria.

Mas nem tudo são flores, já tivemos um ano que não podíamos fazer a festa e trouxe uma das maiores lições que tive na minha vida. Vou contar a história a seguir.

Não teve festa não por crise financeira ou algo do tipo, foi o momento para se despedir do meu avô, que estava muito doente durante o período de Natal. No início não concordei com a ideia de cancelar, mas depois vi que a ideia era melhor.

Vovô Manoel é o pai do meu pai e era o típico homem do interior, turrão e sem papas nas línguas. Sempre se vestia com roupa social e um chapéu para proteger a calvice, além do bigodão. Ele nunca mudou.

Mesmo sendo muito pobre, vovô se virava como pode e adorava conversar com o povo na cidade, era seu palco. Com muito esforço, ele foi vaqueiro, agricultor, dono de bar e ainda flertou com a política. Assim como toda cidade pequena do sertão nordestino, eleição é um grande acontecimento e convite para confusão. Todo mundo o conhecia, inclusive suas polêmicas, que algumas vezes chegaram a ser caso de polícia.

Mainha conta que quando o conheceu e sem querer começou a dialogar com aquele senhor, porém soltou algumas ideias progressistas, aí ele soltou a seguinte frase: “Você é comunista? Não entra aqui em casa”. Mas só ficou na ameaça, porque mãe adorava tirar onda com o jeito marrento de Seu Mané. Sim, mesmo ele sendo seguidor ferrenho do Arena, ele acolheu um sobrinho torturado pelos militares no sítio. Mostrando que até os brutos podem se desconstruir.

Mesmo assim, as pessoas o viam com bons olhos e achavam uma pessoa divertida. Uma coisa marcante na minha vida era a sua adoração pelo o seu sítio e sempre adorava cortar as palmas para dar ao gado de comer.

Essas são as memórias que tenho e guardo dele, no qual seus últimos anos foram bem difíceis e uma doença que nunca foi descoberta fez ele definhar aos poucos aquele homem forte que o visitava quando viajava ao interior.

A mudança brusca fez com que ele se mudasse para Natal e em dezembro de 2013 teve uma trombose em uma das pernas. Estava no estágio quando minha mãe me ligou dizendo que ele teve que fazer uma cirurgia. No entanto, o procedimento cirúrgico teve complicações e foi internado na UTI.

Rapidamente, o Natal teve que ser cancelado e a gente fez apenas um jantar em família, que depois todo mundo foi embora após comer. No dia 25 de dezembro de 2013, eu fui ver meu avô pela última vez. Me lembro que o Walfredo Gurgel, o hospital, tava agitado, mas sem pessoas no corredor. Mas havia um grande movimento de pessoas.

Então minha mãe me explicou que tinha que entrar de um em um. Esperei e chegou a minha vez. Contando assim parece que foi um sonho e que nunca aconteceu isso. Por quê? Chego na sala e vejo um homem que não era meu avô, mas uma pessoa distante, entubada, aérea e que não me reconheceu.

Parecia que estava morrendo na minha frente, foi algo assustador e tentei falar uma meia dúzia de palavras, que nunca foram escutadas. Não aguentei em vê-lo naquele estado e eu me despedi, corri nos corredores do hospital e comecei a chorar. Senti aquilo seria a última vez que o via e não desejava que fosse desse jeito.

Dias depois, ele apresentou um sinal de melhora e eu queria que estivesse enganada, que ele saísse do hospital e continuar sendo meu velho avô. Todo mundo torcia por uma melhora. Meu pai gastou todas as suas férias para acompanhar e a gente via com um leve otimismo.

Mas, um mês depois, ele se encantou e a gente enterrou em Sítio Novo. Foi a viagem mais longa da minha vida e um dos poucos momentos que a gente se uniu por uma mesma causa.

O que aprendi naquele Natal que as vezes a gente tem que parar quando as coisas não estão dando certo e buscar apoio naqueles nos cercam.

Em dezembro de 2014, após varias tragédias familiares, a gente voltou a fazer uma festa e foi um momento para a gente se unir e soltar nossos demônios e anjos na pista de dança, além de celebrar a vida daqueles que já foram, estão e ainda vão chegar.

E, afinal, o Natal é celebrar a vida!

Feliz Natal!