Henfil e suas pegadas em Natal

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Quando falamos do caturnista Henfil pensamos logo na revista Pasquim e as suas críticas à Ditadura Militar. Porém, pouca gente sabe de sua estadia em Natal na década de 70 e até hoje as histórias de sua morada na capital potiguar é uma novidade até mesmo para quem é da terrinha. No ano passado, Laerte postou a seguinte frase do artista, mostrando que tinha um enorme apreço pela cidade:

Dentre as pessoas que conviveu com Henfil foi o caturnista potiguar, Cláudio de Oliveira. Radicado em São Paulo, Oliveira em entrevista ao Portal da Imprensa falou das lições de desenho que aprendeu e como foi importante para o seu começo de carreira. “Estava começando minha carreira como chargista no diário natalense Tribuna do Norte. O colunista político do jornal, jornalista Woden Madruga, me apresentou a Henfil. Ele gostou dos desenhos que lhe mostrei e me convidou para colaborar com o Pasquim. Tinha eu 14 anos e o velho “Pasca” então era impróprio para menores de 16 anos. Podia desenhar para o jornal, mas não podia lê-lo.”.

As visitas a casa de Henfil aconteciam todas as quartas, que ficava na Praia dos Artistas. “Era uma casa bem espaçosa, muito agradável. Ficava na Praia dos Artistas. O estúdio de trabalho dele tinha uma janela com vista para o mar. Era uma maravilha, ventilado, iluminado. Como por ali entravam insetos, ele sempre tinha à mão um mata-mosquitos. Henfil era super organizado. No estúdio havia também uma grande estante, do chão ao teto, completamente tomada com caixas-arquivo, onde guardava todos os seus originais, catalogados. Ao lado da sua mesa, havia uma máquina de fazer fotocópia, bem moderna. Acho que era importada. Ele não mandava os originais para os veículos, mas sim fotocópias. Num corredor ao lado da sala, havia duas estantes, com livros, jornais e revistas. Eu sempre ia lá à tarde, ele ficava trabalhando enquanto conversávamos. Henfil era um sujeito muito generoso. Eu era quase um menino e ele sempre me recebia muito bem, apesar de estar muito ocupado.”.

Após ter sido roubado na Praia dos Artistas, onde a casa era bastante visitada não só para aqueles que queriam aprender a sua arte, mas também os jornalistas, políticos opositores ao então Governo (Henfil claramente era de esquerda) e intelectuais da cidade (sim, era um acontecimento as visitas em sua residência), Henfil se mudou para a avenida Amintas Barros.

Em Natal, deixou alguns amigos e traços. Dentre os trabalhos estavam as gravuras na “Pax Turismo” mantinha na sua parede alguns dos seus desenhos originais e a logo da Associação dos Docentes de Ensino Superior (A ANDES), criada em 1980, e pediu permissão para usar a Graúna do Henfil como logotipo em suas camisetas.

Ainda deixou algumas de suas tirinhas com seus personagens publicadas na Tribuna do Norte. Mas, ainda mantinha-se os seus trabalhos na região Sudeste, sempre enviando via fax, uma novidade para os natalenses naquela época.  Ele deixou Natal em 1978 (10 anos antes de sua morte) e veio para São Paulo, quando começaram a pipocar as greves no ABC paulista, onde se destacaria o sindicalista Luis Inácio, futuramente conhecido como o presidente da República Lula.

Henrique de Souza Filho era hemofílico e sempre teve uma saúde bastante delicada, assim como seus dois irmãos, Herbert de Sousa, o Betinho, e Francisco Mário. Além deles, tinha mais cinco irmãs. Henfil nasceu em Ribeirão das Neves e cresceu na periferia de Belo Horizonte, onde freqüentou um curso superior de Sociologia, que abandonou depois de dois meses. Foi embalador de queijos, “boy” de agência de publicidade e jornalista, até especializar-se, no início da década de 1960, em ilustração e produção de histórias em quadrinhos. O início de sua carreira de cartunista e quadrinista foi na Revista Alterosa, de Belo Horizonte, a convite do editor e escritor Robert Dummond.

A partir de 1969, fixou-se no semanário Pasquim e no Jornal do Brasil, onde seus personagens atingiram um grande nível de popularidade. Em 1970, lançou a revista Os Fradinhos, com sua marca registrada: um desenho humorístico, crítico e satírico, com personagens tipicamente brasileiros e que retratavam as situações da época.

Após uma década de trabalho no Rio de Janeiro, Henfil mudou-se para Nova York, onde passou dois anos em tratamento de saúde, e escreveu seu livro “Diário de um Cucaracha”. De volta ao Brasil, morou algum tempo no Rio e em Natal (RN). Devido a uma transfusão de sangue em um hospital público, durante tratamento da hemofilia, contraiu o vírus da Aids e faleceu em 1988, em decorrência da doença.