Dermi Azevedo: a história do potiguar que teve seu filho torturado na Ditadura

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O Brechando vai falar a história do potiguar Dermi Azevedo que foi uma das vítimas do Governo que durou 21 anos e ainda teve que ver o seu filho torturado ainda bebê. As sequelas de seus problemas existem até hoje, visto que é portador do Mal de Parkinson por conta das fortes agressões que sofreu enquanto estava preso. Ele foi um dos criadores do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) .

Dermi nasceu em 1949 em Jardim do Seridó, porém foi criado na cidade de Currais Novos. Sempre uniu a comunicação social, a igreja Católica e a luta em favor dos Direitos Humanos. A sua militância surgiu ainda estudante, quando foi do Direitório Acadêmico Dom Hélder Câmara, da Escola de Serviço Social, depois transferiu-se para o curso de Jornalismo.  Em 1968, com outros líderes estudantis potiguares, participou do XXX Congresso da UNE, onde viveu sua primeira prisão política; tendo retornado a Natal e diante da impossibilidade de permanecer em seu Estado, regressou ao Sudeste do país exilando-se depois no Chile em 1970 e 1971. Voltou ao Brasil e foi novamente preso em 1974 por duas vezes.

Foi no ano de 1974 que passou por um de seus maiores traumas, seu filho mais velho Carlos Alexandre foi preso pelos militares. Não, você não leu errado. Ele tinha apenas um ano e oito meses quando foi arrancado de sua casa e torturado na sede do Dops paulista. Foi submetido a choques elétricos e outros sofrimentos. Seus pais, Dermi e a pedagoga Darcy Andozia Azevedo, eram acusados de dar guarida a militantes de esquerda, principalmente aos integrantes da ala progressista da igreja católica.

Dermi já estava preso na madrugada do dia 14 de janeiro de 1974, quando a equipe do delegado Sérgio Fleury chegou à casa onde Darcy estava abrigada, em São Bernardo do Campo, levando o bebê, que havia sido retirado da residência da família. Ela havia saído em busca de ajuda para libertar o marido. Os policiais derrubaram a porta e um deles, irritado com o choro do menino, que ainda não havia sido alimentado, atirou-o ao chão, provocando ferimentos em sua cabeça.

Com a prisão de Darcy, também o bebê foi levado ao Dops, onde chegou a ser torturado com pancadas e choques elétricos.

Depois de ganhar a liberdade, a família mudou várias vezes de cidade, em busca de um recomeço. Dermi e Darcy conseguiram retomar a vida e tiveram outros três filhos, mas Carlos Alexandre nunca se recuperou. Aos 37 anos, teve reconhecida sua condição de vítima da ditadura e recebeu uma indenização, mas nunca pôde trabalhar regularmente. Aprendeu a lidar com computadores, mas vivia atormentado pelo trauma. Ainda menino, segundo relato da família, sofria alucinações nas quais ouvia o som dos trens que trafegavam na linha ferroviária atrás da sede do Dops.

Carlos cometeu suicídio em 2013, aos 40 anos de idade. Na época, Dermi deixou um recado que foi divulgado nas redes sociais.

“Meu coração sangra de dor. O meu filho mais velho, Carlos Alexandre Azevedo, suicidou-se na madrugada dehoje, com uma overdose de medicamentos. Com apenas um ano e oito meses de vida,ele foi preso e torturado, em 14 de janeiro de 1974, no Deops paulista, pela “equipe” do delegado Sérgio Fleury, onde se encontrava preso com sua mãe. Na mesma data, eu já estava preso no mesmo local. Cacá, como carinhosamente o chamávamos, foi levado depois a São Bernardo do Campo, onde, em plena madrugada, os policiais derrubaram a porta e o jogaram no chão, tendo machucado a cabeça. Nunca mais se recuperou. Como acontece com os crimes da ditadura de 1964/1985, o crime ficou impune. O suicídio é o limite de sua angústia.”

Como falado anteriormente, Dermi continuou a sua vida, ocupou sucessivamente as funções de assessor de Imprensa da Secretaria da Administração Penitenciária; foi Editor Chefe do Diário Oficial do Estado de São Paulo; Assessor Técnico do Secretário da Justiça e da Defesa e Cidadania; representante do Governo do Estado no Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana; representante da Secretaria da Justiça na Comissão Especial de Acompanhamento do Programa Estadual de Direitos Humanos; representante da Secretaria da Justiça na Comissão de Polícia Comunitária e na Comissão de Direitos Humanos da Polícia Militar do Estado de São Paulo, representante da Secretaria da Justiça na Comissão de Assessoria ao Governador Mário Covas na questão do Ensino Religioso nas escolas públicas estaduais. De 2000 a 2009, foi presidente do Conselho Deliberativo do Programa Estadual de Proteção a Testemunhas (PROVITA/SP) e presidiu o Colégio Nacional de Presidentes dos Conselhos Deliberativos dos Programas de Proteção às Testemunhas.

Em São Paulo, fez Especialização em Política Internacional na Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), com um trabalho sobre a política externa no Vaticano. Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, com uma tese sobre “Relações Igreja/Estado no Brasil durante o regime autoritário-buracrático (1964-1985)”. Doutor em Ciência Política na USP, sobre o tema “Igreja e Democracia. Democracia na Igreja”. Tendo como orientador o Prof. Dr. Paulo Sérgio Pinheiro. Fundador e diretor do CEPE (Centro Ecumênico de Estudos e Publicações Frei Tito de Alencar Lima). De 2010 a 2011, foi gerente de formação do Instituto de Terras do Estado de São de Paulo/ITESP, onde coordenou cursos de formação em Direitos Humanos. Nesse mesmo período, coordenou o Projeto Memória dedicado a recuperar a memória histórica brasileira durante o regime ditatorial. É membro da Igreja Episcopal de Comunhão Anglicana, onde integra as Comissões Nacional e Regional da Amazônia de Direitos Humanos.

Um ano após a morte do filho, o jornalista enviou uma carta aberta, publicada no site Carta Maior, que pode ser lida neste link.

Recentemente, ele lançou o livro “Nenhum Direito A Menos”, que tem como subtítulo “Direitos Humanos – Teoria e Prática”, pela Giramundo Editora. Ainda tem uma outra publicação chamada “Travessias Torturadas”, que relata a sua história durante os anos de chumbo.