Júlia Medeiros: Do pioneirismo até o apelido jocoso “Rocas-Quintas”

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Essa moça da foto se chama Júlia Medeiros, nasceu na região do Seridó potiguar no dia 28 de agosto de 1896. Desde menina, Júlia Medeiros teve acesso às primeiras letras, devido à visão pedagógica do seu pai, o fazendeiro Antônio Cesino de Medeiros, que não fazia distinção de sexo.   Foi alfabetizada em sua própria residência, numa das salas da Fazenda Umari, sob a orientação de Misael Barros, o seu mestre-escola. Após ser alfabetizada Júlia Medeiros seguiu para a capital potiguar em busca de ampliar seus conhecimentos. A mesma viajou nas costas de burro pelo coletor estadual Eulâmpio Monteiro. A viagem até Natal durou cerca de oito dias.

Em Natal, se formou no Colégio Nossa Senhora da Conceição e decidiu ser professora. Com esse objetivo ingressou, em 1921, na Escola Normal de Natal. Após concluir seus estudos foi diplomada no dia 30 de janeiro de 1926. De volta a Caicó, com o propósito de fundar um externato para as crianças, faz publicar no Jornal das Moças (1926-1932), no qual trabalhou como redatora, redigiu uma nota, por meio da qual, oferecia os seus serviços como professora particular.

Com o intuito de instruir as crianças de sua terra, essa professora entra para o quadro pedagógico do Grupo Escolar Senador Guerra, em 30 de junho de 1926.
As práticas da professora Júlia Medeiros se assemelhava à Pedagogia do Amor, baseadas em responder às exigências reais dos jovens.

O método adotado por essa professora era o intuitivo, que não fazia o uso de nenhum castigo físico. Os princípios intuitivos de ensino foram elaborados a partir das idéias organizadas pelo educador suíço Pestalozzi no século XIX. Nessa concepção de aprendizagem é o produto da observação, e da experiência entre aluno e o objeto do conhecimento. Os sentidos, como o olhar, o ouvir, o tocar, eram pressupostos para o raciocínio e aprendizagem. Eles despertavam o interesse e a curiosidade do aluno a partir das impressões
e das atividades propostas.

Júlia votando pela primeira vez

Na sala de aula da mestra Júlia Medeiros, a palmatória havia sido abolida e suas práticas eram da conciliação na relação professor-aluno. Segundo entrevista dos seus ex-alunos, como Elza
Filgueira, uma vez por semana Júlia fazia o Argumento, geralmente nas quintas-feiras ou nos sábados. O argumento era feito de voz alta numa sucessão de vozes. No ensino infantil era adotado como primeiro livro a carta do ABC e a tabuada. A carta de ABC começava pelo alfabeto, depois passava pelas sílabas, por último para as frases curtas e os provérbios, alguns extraídos da bíblia.
Vários são os alunos que recordaram do entusiasmo com que Júlia Medeiros regia, de apontador na mão, os seus alunos nos dias de marcha. Distribuídos em fila, seus alunos marchavam na própria sala de aula, contornando as carteiras e entoando cânticos que eram aprendidos de cor. Cantavam também para iniciar e terminar as aulas.

No entanto, alguns a chamaram de “louca” por exercer este ensino naquela pequena cidade, além de chocar por optar em não casar e dirigir um automóvel.

Sintonizada com a causa das mulheres, escreve mais uma página na história de Caicó. Foi a primeira mulher de Caicó a se alistar como eleitora. Juvenal Lamartine, político norte-rio-grandense simpático à causa feminina, concedeu o direito de sufrágio às mulheres antes de assumir o governo do Rio Grande do Norte. O estado foi o primeiro do Brasil no qual as mulheres podiam votar e ser votadas.

Na década de 40, assumiu a direção do Hospital do Seridó, tornando-se a primeira mulher a exercer um cargo na pasta administrativa em Caicó.

Com o desejo de avançar na sua luta pelo direito da mulher, Júlia Medeiros candidatase a uma vaga na Câmara Municipal de Caicó. Em 1950, aos 54 anos de idade, é eleita
vereadora pelo Partido Social Democrático. Obteve na eleição 214 votos, num universo de 4.469, correspondendo a 4,78% da votação. Concorreu com 28 candidatos e foi a 6ª
colocada. Reelegeu-se para novo mandato para o período de 1954 a 1958.

Após encerrar o mandato como vereadora, Júlia Medeiros se encontrava perturbada mentalmente. Segundo seus familiares, ela se trancava em sua casa e permanecia dias sem comunicação. Segundo o historiador Adauto Guerra, a debilidade de Júlia Medeiros pode estar associada a sua trajetória de mulher sempre atuante naquela sociedade: “Júlia Medeiros trabalhava mais do que a força humana”, assinala ele.

Durante a sua trajetória, ela era amiga de grandes nomes potiguares, como Palmira Wanderley e Câmara Cascudo. Em suas inúmeras viagens ao Rio de Janeiro fez amizade com Betha Lutz, uma das mais importantes feministas do país.

Após a sua aposentadoria, na década de 60, a família achou que era melhor se mudar para Natal. Durante a sua trajetória, ela era amiga de grandes nomes potiguares, como Palmira Wanderley e Câmara Cascudo. Em suas inúmeras viagens ao Rio de Janeiro fez amizade com Betha Lutz, uma das mais importantes feministas do país. Foi onde surgiu o apelido “Rocas-Quintas”, porque andava por toda a cidade a pé em passos ligeiros, vestindo roupas desgastadas e agindo como mendiga.

Após receber as zombarias das crianças com seu apelido jocoso, ela dizia que foi uma mulher de destaque, porém ninguém a acreditava. Sempre dizia: E ela, com o dedo em riste, revida: “Me respeitem, que eu tive vida importante”.

Morreu no Hospital das Clínicas, em Natal, na década de 70. A casa dela nas Rocas foi demolida para se transformar na Praça Venceslau Brás e a família recebeu indenização da Prefeitura do Natal.