Assim como Mulan, brasileiras se disfarçaram de homem na guerra

Compartilhe:

O filme da Disney de 1998 conta a história da chinesa Mulan, que foi criada para ser uma mulher para casar e servir ao seu marido. Após seu pai, doente, ter sido convocado para ir à uma guerra, ela resolveu cortar os cabelos e se disfarçar de homem para defender a China. Embora seja ficção, no Brasil, principalmente durante o período do Império, existiram duas mulheres que disfarçaram e resolveram entrar nas Forças Armadas. Vamos contar a histórias delas.

A primeira que vamos falar se chama Maria Quitéria e ficou famosa durante o reinado de Dom Pedro I. Nascida na cidade de Feira de Santana,a primeira mulher a ser reconhecida por assentar praça numa unidade militar das Forças Armadas Brasileiras e a primeira mulher a entrar em combate pelo Brasil, em 1823, durante a Guerra a favor da Independência do Brasil.

Em 1996 o Estado brasileiro atribuiu-lhe o título de patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro, e seus feitos são recorrentemente comparados ao da mártir francesa Joana d’Arc.

Após a falta de apoio do pai em se alistar no Exército, Maria Quitéria de Jesus Medeiros, seu nome completo, fugiu, dirigindo-se à casa de sua meia-irmã, Teresa Maria, casada com José Cordeiro de Medeiros, e, com o auxílio de ambos, cortou os cabelos. Vestindo-se como um homem, com as roupas do cunhado, dirigiu-se à vila de Cachoeira, onde alistou-se no Regimento de Artilharia sob o nome de Medeiros.

Serviu no Batalhão de Caçadores Voluntários do Príncipe D. Pedro I, sendo então conhecida como “Soldado Medeiros”. Defendida pelo major José Antônio da Silva Castro (avô do poeta Castro Alves), comandante do Batalhão dos Voluntários do Príncipe, em virtude de sua facilidade no manejo das armas e de sua reconhecida disciplina militar, foi incorporada a esta tropa.

A 29 de outubro seguiu com o seu Batalhão para participar da defesa da ilha de Maré e, logo depois, para Conceição, Pituba e Itapuã, participando de batalhas também na foz do Rio Iguaçú, integrando a Primeira Divisão de Direita. Em fevereiro de 1823, participou com bravura do combate da Pituba, quando atacou uma trincheira inimiga, onde fez vários prisioneiros portugueses (dois, segundo alguns autores), escoltando-os, sozinha, ao acampamento.

Maria Quitéria

Em 31 de março, no posto de Cadete, recebeu, por ordem do Conselho Interino da Província, uma espada e seus acessórios. Finalmente, em 2 de julho de 1823, quando o Exército Libertador entrou em triunfo na cidade do Salvador, Maria Quitéria foi saudada e homenageada pela população em festa. O governo da Província dera-lhe o direito de portar espada, e, na condição de Cadete, envergava uniforme de cor azul, com saiote por ela elaborado, além de capacete com penacho.

Perdoada pelo pai, Maria Quitéria casou-se com o lavrador Gabriel Pereira de Brito, o antigo namorado, com quem teve uma filha, Luísa Maria da Conceição.

Viúva, mudou-se para Feira de Santana em 1835, onde tentou receber a parte que lhe cabia na herança pelo falecimento do pai no ano anterior. Desistindo do inventário, devido à morosidade da Justiça, mudou-se com a filha para o Salvador, nas imediações de onde morreu. Em 21 de agosto de 1853, Maria Quitéria de Jesus Medeiros (a primeira mulher brasileira a ingressar na carreira militar no Brasil) falece, aos 61 anos de idade, quase cega, fato totalmente mantido em anonimato.

Os restos mortais de Maria Quitéria de Jesus Medeiros estão sepultados na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento e Sant’Ana, no bairro de Nazaré em Salvador.

Uma outra mulher que se disfarçou de homem foi Antônia “Jovita” Alves Feitosa, durante o Segundo Império. Assim como Quitéria, ela é nordestina, mais precisamente da cidade de Tauá, no interior do Ceará. Ela foi uma voluntária da Pátria, um dos pelotões brasileiros da Guerra do Paraguai. Ela queria queria se alistar no exército brasileiro e lutar na Guerra do Paraguai. Não podia, porque era mulher e, então, cortou os cabelos e se vestiu de homem. Conseguiu enganar os policiais, porém, foi delatada por uma mulher que logo reconheceu os traços femininos.

Jovita Feitosa

Ao ser levada para interrogatório policial, chorou copiosamente e manifestou o desejo de ir lutar nas trincheiras. Foi aceita no efetivo do Estado, após o caso chamar a atenção de Franklin Dória, então presidente da Província do Piauí, que lhe incluiu no Exército Nacional como segundo sargento. Recebeu fardamento e embarcou com o corpo de voluntários. Ao chegar ao Rio de Janeiro, Jovita tornou-se personalidade pública e notória. Todos buscam conhecer a mulher que queria ir a guerra. Na capital imperial foi entrevistada numa das salas do quartel do campo de aclamação.

Dois meses depois de chegar ao Rio de Janeiro, Jovita Feitosa teve seu embarque negado pelo Ministro da Guerra, que julgou sua condição de mulher incompatível com o serviço no fronte de batalha. Caiu em profunda depressão, após ser abandonada pelo amado, o engenheiro inglês, Guilherme Noot. Aos 19 anos de idade, em 1867, cometeu suicídio com uma punhalada no coração.