[ARTIGO] Sabrina Bittencourt: Precisamos escutar mais as mulheres

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Esse fim de semana, perdemos a Sabrina Bittencourt. A Sabrina não perdeu o mundo, a gente que perdeu essa moça, que ajudou a desmascarar uma pessoa que se dizia médium, mas usava o espiritimo para assediar várias mulheres durante a sua trajetória. Apesar de ter coletado centenas de depoimentos, com provas concretas, as pessoas nunca a acreditram nas suas denúncias e ainda tinha que lutar contra um linfoma, que estava lhe matando aos poucos e ainda tinha que fugir do Brasil por conta das ameaças de mortes. O seu falecimento comprova ainda a dificuldade dos investigadores de acreditar nas denúncias de estupro e abuso sexual.

Vasculhando o Google e artigos acadêmicos para tocar nesse assunto, eu achei uma reportagem do The Intercept, que conta que uma pesquisa norte-americana que analisou dez anos de dados concluiu que 9 entre 10 relatos de estupro são verdadeiros. Aqui, não há nenhum estudo similar ao conduzido pelo especialista David Lisak nos Estados Unidos – mas a semelhança das dificuldades das sobreviventes para acessar a Justiça nos dois países permite uma aproximação. Lá, segundo Lisak, estima-se que no máximo 36% dos estupros são denunciados. Os percentuais são semelhantes no Brasil. Aqui, a notificação é de 35%, segundo estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Ou seja, 65% das vítimas de violência sexual não vão às Delegacias da Mulher para relatar a queixa e os poucos dados que temos vem do Sistema Único de Saúde (SUS), visto que mulheres que são estupradas ou violentadas sexualmente vão aos hospitais públicos para receber diversos medicamentos com o objetivo de não ter uma gravidez e outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). Além disso, muitos processos estão parados no Tribunal de Justiça.

Enquanto isso, as mulheres, durante o tempo todo, são questionadas se aquele sexo ruim não foi consentido ou não. Além dos outros apontarem, as mesmas já sentem culpadas por terem que passar por essa situação, sem pedir.

Para se ter uma ideia de como essa dúvida por estupro é questionada, muitas vezes é usada como entretenimento. No ano de 2009, um programa de rádio na Austrália foi retirado do ar por causa de uma entrevista feita com auxílio de um detector de mentiras na qual uma menina de 14 revelou ter sido estuprada. O programa foi suspenso e um dos apresentadores do programa, Kyle Sandilands, foi demitido de outro programa que apresenta na televisão, o Australian Idol.

Uma menina de 14 anos que participou do bloco respondeu a perguntas sobre a sua vida sexual feitas pela sua própria mãe, que aparentemente sabia que a jovem havia sido estuprada aos 12 anos de idade.

Mas, por que Sabrina lutou ? Uma vítima não quer criar outras vítimas, pelo contrário, queria proteger. De família mórmon, Sabrina foi abusada desde os 4 anos por integrantes da igreja frequentada pelos pais e avós. Aos 16, ficou grávida de um dos estupradores e abortou. Se você assiste séries do Discovery e documentário, nos Estados Unidos, você vai saber inúmeras histórias como de Sabrina que foi abusada sexualmente e invadem comunidades religiosas para resgatar mulheres que foram vítimas de abuso.

Bittencourt se dedicou à militância por vítimas de abuso por líderes religiosos, dentre eles Prem Baba e João de Deus. Ela é uma das criadoras da plataforma Coame, sigla para Combate ao Abuso no Meio Espiritual, ferramenta que concentra denúncias de violações sexuais cometidas por padres, pastores, gurus e congêneres. Sabrina ajudou, principalmente, as vítimas de abuso sexual de João de Deus, investigando as acusações junto à imprensa. A ativista também auxiliou a filha do próprio médium, Dalva Teixeira, na denúncia contra o pai por abuso.

Fazia parte do grupo Somos Muitas, que no ano passado, divulgou uma série de acusações de abuso sexual que teriam sido praticados pelo médium João Teixeira de Faria, 76, mais conhecido como João de Deus, em Abadiânia, interior de Goiás. Com as informações coletadas pelo grupo e com a ajuda de Sabrina, o MP do estado instaurou a própria força-tarefa e denunciou o líder espiritual, com uma prisão sendo decretada no dia 16 de dezembro.

Em janeiro, Sabrina também apresentou outra denúncia ao Ministério Público sobre o suposto envolvimento de João de Deus em casos de tráfico internacional de bebês e escravização de mulheres.

Além disso, ela era conhecida como empreededora social e um dos projetos era Escola Com Asas, cujo objetivo era apoiar crianças, jovens, adultos e famílias na realização dos seus sonhos através do empreendedorismo social, estimulando sua capacidade de transformação e inovação, de forma colaborativa e livre. Era uma das ativistas que o Brasil pudesse promover o homeschool. Veja a palesta dela sobre a escola a seguir: