Eleitores do presidente foram maioria entre os manifestantes/eleitores que agrediram jornalistas

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Com uma eleição marcada por compartilhamento de notícias falsas e um amplo gasto de dinheiro para blogs e empresas de marketing digital engatar esta matéria nas principais redes sociais, não seria surpresa que os jornalistas da tão considerada imprensa tradicional fossem agredidos do que os anos anteriores. De acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas, uma espécie de Central Única dos Trabalhadores (CUT) para os profissionais de comunicação social, esses atos violentos cresceram 36,36%, em relação ao ano de 2017 e fez um levantamento das denúncias que recebeu sobre os casos de violência entre os profissionais.

Foram 135 ocorrências de violência, entre elas um assassinato, que vitimaram 227 profissionais.

Os jornalistas que trabalham em televisão foram os profissionais mais agredidos, no ano de 2018. Das vítimas de algum tipo de violência, 77 jornalistas trabalhavam nessa mídia, representando 39,29% do total. Os profissionais de jornal – que em 2016 ocuparam a primeira posição – voltaram à segunda colocação. Foram 41 casos de violência que vitimaram esses trabalhadores, representando 20,92% do total.

Houve, ainda, cerceamento à liberdade de imprensa por decisões de juízes e de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O caso mais emblemático foi a decisão final do presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, de proibir jornalistas de entrevistar o ex-presidente Lula, que foi condenado e preso no ano de 2018, e os veículos de comunicação de divulgar entrevistas que tivessem sido realizadas.

Eleitores/manifestantes foram os principais agressores, sendo responsáveis por 30 casos de violência contra os jornalistas, o que representa 22,22% do total. Entre esse grupo, os partidários do presidente eleito Jair Bolsonaro foram os que mais agrediram a categoria, somando 23 casos. Já os partidários do ex-presidente Lula, que não chegou a ser candidato, estiveram envolvidos em sete episódios.

Diz o Fenaj

A greve dos caminhoneiros (movimento com características de locaute, greve promovida por empresários e não trabalhadores) também contribuiu para alterar o perfil dos agressores. Com 23 casos (17,04% do total), os caminhoneiros ficaram sem segundo lugar na lista dos que cometeram atos de violência contra os jornalistas a partir de agressões físicas, agressões verbais, ameaças/intimidações e impedimentos ao exercício profissional. Isso é uma demonstração inequívoca de que grupos e segmentos não toleram a divergência e a crítica e não têm apreço pela democracia.

Fenaj ainda apontou que a mordaça partiu das próprias empresas empregadoras, que proibiram seus profissionais de se manifestarem em redes sociais sobre questões polêmicas, política e ideologia. Na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), principal veículo de Comunicação do Governo Federal, houve casos de censura na cobertura política e também de outros temas, como o Fórum Mundial da Água.

Além do número geral de casos de violência ter crescido, em 2018, o jornalista Ueliton Bayer Brizon, foi assassinado, em Rondônia, enquanto no ano passado não houve morte de algum repórter.

Também houve aumento no número de assassinatos de outros profissionais da comunicação, em comparação com o ano anterior, quando um blogueiro foi assassinado. Em 2018, quatro radialistas perderam a vida em razão de suas atividades de comunicação: Jairo Souza (Pará), Jeferson Pureza Lopes (Goiás), Marlon Carvalho de Araújo (Bahia) e Severino Faustino, conhecido como Sílvio Neto (Paraíba). Os assassinatos dos radialistas constam neste Relatório para efeito de registro, mas não foram somados aos números totais de ocorrências de violência contra jornalistas, visto que as vítimas pertenciam à categoria dos radialistas.

E os autores da agressão ?

Os eleitores do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) foram maioria entre os manifestantes/eleitores que agrediram jornalistas. Em 23 casos, durante a pré-campanha e a campanha eleitoral, nos dias de votação e nas comemorações da vitória, alguns deles foram os responsáveis pelas agressões.

Em episódios relacionados à eleição presidencial, também agrediram jornalistas alguns defensores do ex-presidente Lula, em manifestações contra sua condenação pela justiça e contra a sua prisão em 7 de abril. Foram sete casos, ocorridos no Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.  Em outros dois casos, os profissionais foram vítimas de policiais durante manifestações e houve ainda um caso de censura, com o Supremo Tribunal Federal impedindo jornalistas de entrevistarem Lula e veículos de comunicação de divulgarem entrevistas.

Outro fato ocorrido em 2018 também contribuiu para alterar o perfil dos agressores: a greve dos caminhoneiros. Eles ficaram em segundo lugar na lista de agressores, com o registro de 23 casos. (17,04% do total).

Os policiais militares/guardas, que figuraram no topo da lista de agressores nos últimos anos, ficaram em terceiro lugar, em 2018, empatados com os empresários, inclusive os da comunicação. Cada grupo foi responsável por 13 agressões (9,63% do total). Os empresários da comunicação foram os principais responsáveis pelos casos de censura e de ataque à organização sindical dos jornalistas.

Também cometeram violência contra jornalistas dirigentes/técnico/torcedores de clubes esportivos (8 casos), seguranças (8 casos), populares (5 casos), um ator e um jornalista, que agrediu verbalmente uma colega de profissão. Em sete casos, incluindo o assassinato e os três atentados, os agressores não foram identificados.

Quais foram os casos de violência mais comum ?

As agressões físicas foram a violência mais comum também em 2018, repetindo a tendência dos anos anteriores. Foram 33 casos, que vitimaram 58 profissionais, contra 29 ocorrências em
2017 (13,79% a mais). Mas houve grande crescimento no número de casos de agressões verbais, ameaças/intimidações e impedimentos ao exercício profissional.

Em 2018, as agressões verbais e os impedimentos ao exercício profissional aumentaram mais de 100%, em comparação com o ano anterior. Os casos de ameaças/intimidações cresceram cerca de 87%. Foram registradas 27 ocorrências de agressões verbais, 28 de ameaças/intimidações e 19 de impedimentos ao exercício profissional (aumento de mais de 137%). Em 2017, foram,
respectivamente, 13, 15 e 8 casos.

Esse significativo crescimento está relacionado diretamente à eleição presidencial e aos fatos associados.

Outro episódio bastante significativo foi a greve dos caminhoneiros. Dezenas de profissionais foram agredidos verbal e/ou fisicamente e impedidos de realizarem seu trabalho, durante a cobertura da
greve. Foram 23 ocorrências, registradas em diversos estados.

Houve, ainda, três atentados, dez casos de censura, dez ocorrências de cerceamento à liberdade de imprensa por meio de ações judiciais, uma prisão e três casos de violência contra a organização sindical dos jornalistas.

Dois casos de censura chamam a atenção pela abrangência, o que os torna ainda mais graves. O Grupo Globo impôs censura prévia aos seus jornalistas e colaboradores, determinando que não expressassem opiniões políticas ou ideológicas em suas redes sociais. Na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), houve vários casos de censura, muitas também relacionadas às eleições ou ao governo federal e seus aliados. Um diretor chegou a ser demitido, após a publicação de uma reportagem que desagradou a direção da Agência Nacional de Águas e da Secretaria de Recursos Hídricos do governo de São Paulo.

Qual a região que teve mais agressão ?

No Nordeste do país foram registrados 21 casos de agressões contra jornalistas (15,55%). Entre os estados da região, o Ceará continua sendo o mais violento para a categoria, com 11 ocorrências. Em Pernambuco, houve quatro casos de violência, na Bahia e na Paraíba, 2 casos em cada, e em Alagoas, e no Piauí, um caso em cada. A Região Sudeste é a mais violenta para os jornalistas brasileiros. Repetindo tendência registrada nos últimos cinco anos, o maior número de agressões contra os profissionais ocorreu na região, onde foram registradas 53 ocorrências, representando 39,26% do total de 135 casos.

Homens ou mulheres jornalistas ? Quais foram os mais agredidos ?

A categoria é formada majoritariamente por mulheres (67% do total), mas os homens são o maior contingente de vítimas da violência em razão do exercício profissional. Esta tendência, registrada desde a década de 1990, foi mantida novamente em 2018, quando 105 jornalistas do sexo masculino foram agredidos (46,26%). Entre as mulheres, 30 (23,08%) foram vítimas de algum tipo de agressão.

Em algumas ocorrências, os profissionais não foram identificados ou a violência foi contra equipes de profissionais, em que os nomes dos jornalistas não foram divulgados, o que não permitiu a classificação por gênero de 62 vítimas (27,31%).

Houve também cinco ocorrências de censuras por parte de empresas e outras cinco por decisões judiciais, nas quais não coube a identificação de gênero. Nos dois casos, ficou caracterizada a violência generalizada, atingindo vários profissionais, homens e mulheres.