Visitando uma ocupação de estudantes em Natal

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Um grupo de estudantes ocupam escolas de Natal e do RN criticando a PEC 241, reforma do Ensino Médio e além da escassa infraestrutura. Nesta quinta-feira (27), o Brechando visitou a Escola Estadual Anísio Teixeira, no bairro de Petrópolis, que chamou muito a atenção da imprensa, por ser uma das escolas estaduais conceituadas, estar sempre no ranking das que mais aprovam no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e ter matrículas disputadas.

Independente, se você é contra ou a favor, uma coisa é certa: ninguém está 100% satisfeito com a educação pública.

(Fotos: Lara Paiva)
Anísio Teixeira é uma das escolas ocupadas em protesto às mudanças na educação (Fotos: Lara Paiva)

Entrando no Anísio Teixeira (por sinal era nome de um educador que lutava por uma educação pública) mostrava, aparentemente, um cotidiano de uma escola qualquer: alunos entrando e saindo da sala, cumprimentando todos os funcionários que circulavam no local, fazendo provas e dentre outras coisas.

Mas havia um diferencial: o ambiente político se intensificou, principalmente com os cartazes espalhados contra a PEC, discussão sobre a ocupação e a reforma do Ensino Médio, fazendo com que os jovens debatessem as mudanças na educação brasileira.

É um espaço enorme, maior que muita escola privada da cidade, porém a estrutura está mal acabada, mesmo que disfarçada nas paredes de cor azul berrante. Sem contar que as fiações estavam soltas, carteiras velhas jogadas ao relento, mofo, além de salas nunca utilizadas, como o laboratório de ciências e a sala de música, onde os alunos deveriam ter aulas.

Os jovens estão direto na escola, no qual estão dormindo em uma determinada sala de aula que foi utilizada como QG da ocupação, no qual estão montadas as barracas e espaços para se alimentarem.  Alguns chegam até a improvisar as carteiras para fazer uma cama.

Colégio é ocupado por um grupo de estudantes
Colégio é ocupado por um grupo de estudantes

Lá, eu encontrei o trio Bruna Lourenzo, Gean Bezerra e Judson Felipe, que me mostraram como está a situação do Anísio Teixeira. Eles admitiram que as medidas do Governo foram apenas a ponta do iceberg para que colocassem o bloco na rua.

“Desde os anos anteriores, a escola estava passando por uma situação crítica e nos reunimos com os outros que também estavam insatisfeitos. Então, nós resolvemos ocupar a escola”, justificou Judson.

Os meninos contam que alguns discentes não ficaram felizes com o ato, incluindo os alunos do turno da noite que tiveram as aulas interrompidas. A direção também ficou insatisfeita. Os professores, por sua vez, se manifestam discretamente sobre o assunto, pois temem levar notificações.

Desde esta semana, as aulas do Anísio Teixeira deixaram de ser interrompidas integralmente. “As aulas estão das 7 às 9h40, 13h às 15h40 e no turno noturno as aulas são normais”, explicou Gean Bezerra.  A ocupação está programando diversas atividades, como debates, oficinas, limpar o mato e o lixo que estava na escola, além de aulões preparatório do Enem com professores de cursinhos e estudantes de licenciatura.

No dia que o blog visitou houve um concerto da Orquestra Sinfônica da UFRN.

“Uma boa parte está contra o movimento, principalmente o grêmio da escola. Infelizmente, muitos não querem saber o que está acontecendo na escola e a gravidade dos acontecimentos políticos, só querem terminar o ano letivo e passar de ano, mas as coisas não são bem assim. Não são apenas as notas que ajudam no conhecimento”, continuou o  Gean, o mais falante do grupo.

O mesmo saiu de Touros para fazer o Ensino Médio na capital, pois teria melhores condições de estudar, mas viu que tinha problemas parecidos.  Portanto, ele percebeu que a população tem que cobrar para que a educação melhore.

“Nós fomos chamados de baderneiros, vagabundos e preguiçosos pelo pessoal que é contra, porém eu não estou acomodado e quero uma escola melhor para mim e aos meus parentes. Estou cansado de ser tratado como trouxa pelos políticos. Ninguém quer pagar para ter conhecimento. A realidade não era para ser essa. Se toda escola pública tivesse a qualidade de uma privada, esta nunca existiria”, afirmou.

Fios expostos no teto da escola
Fios expostos no teto da escola

Judson contou que apesar da resistência dos estudantes, eles estão recebendo bastante apoio. “Mesmo que tenha grupos estudantis e ex-alunos nos apoiando e participando da ocupação, a maioria são realmente alunos do Anísio Teixeira, e estão querendo um colégio melhor, vestindo a camisa da escola, não estão sendo pagos ou impulsionados, como muita gente quer dizer”.

“Se toda escola pública tivesse a qualidade de uma privada, esta nunca existiria”

Já a Bruna Lourenzo, por sua vez, comentou que a escola “tem todos os problemas que uma escola pública pode ter”. A estudante explicou que dos condicionadores de ar, do modelo split e modernos, existentes na escola só funcionam da coordenação, direção, secretaria e biblioteca.

“Falta professor, tem fiação exposta nas paredes e a ausência de uma boa infraestrutura. Não fico motivada a ficar dentro de sala de aula. Parece que é lei uma escola estadual ficar dessa forma. Numa reunião, recente, com integrante da Secretaria de Educação, quando pedi para que consertassem o ar-condicionado. Sabe o que ele falou? Ele disse: ‘Mulher, você está reclamando demais, no meu tempo nem ventilador tinha’. A gente não está pedindo demais, só queremos uma infraestrutura decente.”.

imageApesar do renome, os três concordam que o Anísio Teixeira pode ir muito além e tem capacidade para ter a mesma qualidade de uma IF. “Nós temos professores qualificados, mas a falta de infraestrutura e o descaso da política pública compromete até na qualidade das aulas”, contou a Bruna.

A Lourenzo disse que no ano passado quando os alunos quisessem reclamar de algum problema, eles realizavam diversos abaixo-assinados, chegavam a entregar para diretoria, que passava para a Secretaria de Educação, mas não era resolvido. “Fiz isso no ano passado diversas vezes e não estava resolvendo. Parece que as pessoas estão acomodadas com o descaso.”.

Ele disse: ‘Mulher, você está reclamando demais, no meu tempo nem ventilador tinha’. A gente não está pedindo demais, só queremos uma infraestrutura decente.

Eles também apoiam a ocupação da Escola Augusto Severo que fica por trás do Anísio Teixeira, que está interditada pelo Ministério Público no Rio Grande do Norte há dois meses devido à falta de infraestrutura, fazendo com que boa parte dos alunos não tenham infraestrutura. “Já teve noites que dormimos e pessoas tentavam invadir aqui e o Augusto Severo como forma de nos intimidar”, relatou Bruna Lourenzo.

Ao serem questionados quando deixarão a escola, eles responderam quando comprometerem que vão reformar e trazer os equipamentos que estão faltando no colégio com todo o documento de comprometimento. “Se não reformarem, a gente ocupa de novo”, finalizou Gean.

No Instituto Federal do RN (IFRN), as unidades de João Câmara e do bairro das Rocas em Natal estão ocupados. Os estudantes do IFRN Central, que também fica na capital potiguar, já deixaram a sua ocupação, mas ainda apoia os estudantes que estão na luta.

“Quando a educação não for mais um sinônimo de privilégio, ninguém estará mais fazendo protestos”, afirmou Luiz Gabriel, diretor de assistência estudantil do grêmio do IF Central.

Além do Anísio Teixeira e Augusto Severo citadas nesta matéria, as outras ocupadas em Natal são Floriano Cavalcanti (Floca), Berilo Wanderley, Ana Júlia e Castro Alves. Mais de mil escolas estão protestando em todo país.