Crônica: Márcia, feminicídio e o ciclo que não tem fim

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Em uma semana, 11 mulheres foram mortas no Rio Grande do Norte, todos os assassinatos foram feitos por ex-companheiros. Entretanto, os casos foram tratados apenas como um crime normal. Até quando um fim de término é motivo para extermínio?

Márcia, nome fictício, é uma garota que tem sonhos, quer estudar, ter um emprego e uma carreira. A vida é complicada, pois ela mora no conjunto longe dos principais bairros de Natal. A escola? Ela tem que pegar ônibus, pois a melhor escola pública da cidade fica no outro lado da cidade. Mas, ela se vira, aguenta a família barra pesada e quer fugir daqueles problemas. Impossível. Vira diarista para conseguir algum dinheiro, quer ser independente. Na hora da folga, numa festa, ela encontra o Roberto, um cara bacana, inicialmente. Começa uma amizade, vira namoro e ele promete que é um cara legal.

À medida que os dias se passam, ele mostra que é uma pessoa ciumenta. Se ela tivesse um rapaz adicionado no seu Facebook, era motivo de uma briga. Para não perder o namoro, ela não adicionou mais homens na sua rede de amizades. Por quê? O Roberto é um cara muito bom para ela e que é o amor da vida dela. Isso não seria o primeiro controle.

Ela não podia ter homens adicionados em sua rede social, mas ele podia ficar com outras mulheres e paquerá-las publicamente. Márcia, humilhada, tenta um pouco de coragem para questioná-lo. Aí o Roberto solta: “É coisa de homem, cala a boca!”. Ela aceita calada, porque ele é um cara muito bom para ela e que é o amor da vida dela!

Depois, Márcia deixa o emprego de diarista, com o salário que ela juntou tenta fazer um curso técnico para arrumar um trabalho melhor. Lá, ela fica amiga de um rapaz chamado Fábio. Roberto, como todo cara “ciumento”, fica indignado e começa a indagá-la. As brigas que eram só xingamentos, começam a agredir.

Segunda-feira, Márcia chega com um olho roxo, os amigos a questionam o porquê de estar desse jeito. Ela tentara desconversar, mas eles percebem que foi uma briga com o namorado.

Cansada da situação da família, visto que tem que ser babá de uma mãe com problemas de saúde, irmãos problemáticos e viver numa casa onde predomina relacionamentos abusivos, ela vai morar com o Roberto, pois está grávida e quer continuar sua vida, pois ele é o amor da sua vida.

Coitada, ela trocou seis por meia dúzia. Apesar de morar num puxadinho na casa dos pais do Roberto, eles não eram felizes. Roberto a batia se ela questionasse algo, os ciúmes cresceram e ele nunca a acompanhou no médico durante a gravidez. Era de risco, ela tinha hemorragia o tempo todo. Mas, ele adicionava mais sangue na cara dela quando discutiam com a conta da Cosern que estava atrasada.

Não vou acabar o relacionamento, pois ele é muito bom para mim. Ele é o grande amor da minha vida.

Ela teve que se virar sozinha. A filha nasceu após um parto solitário, numa sala fria e médicos cortando a sua barriga sem explicar o motivo, pois o marido estava bebendo em um bar perto da casa, dizia que estava muito ocupado. Mentira, ele estava com a vizinha boazuda, que estava com um corpo mais inteiro.

Márcia volta para casa com o bebê no colo. O corpo alterou, novas tarefas surgiram, mas os problemas ainda continuam. Roberto estava mais bêbado, desempregado e sugando as energias da esposa, forçava a transar enquanto a mulher estava cansada de tanto cuidar da criança. As coisas realmente pioraram, mas ele é o amor da vida dela e é bom para ela. Eles fazem as pazes e o marido promete que irá mudar.

Não mudou, claro.

Ela não podia ter homens adicionados em sua rede social, mas ele podia ficar com outras mulheres e paquerá-las publicamente. Não termina, porque ela o ama muito.

Márcia arranja um emprego, começa a melhorar na profissão, tem uma vida melhor, conhece novas pessoas. Foi estimulada a fazer uma faculdade, conseguiu uma bolsa numa instituição privada. Conheceu gente legal e pessoas que realmente a trataram bem. Roberto ficou no segundo plano e esse pequeno empoderamento a fez descobrir que ele não era o amor da vida dela. Pede a separação, leva a filha e mora num kitnet perto da faculdade.

Ele não aceita esta mudança. A espera na faculdade e pede para que saiam como se fosse os velhos tempos. Que nada! Uma facada no peito e um corpo estendido na rua. Itep chega ao local, lhe identifica, bota seu nome no sistema de mortos naquele dia, seu nome vai parar na editoria de Polícia e o assassino foge. Foi enterrada no cemitério do Bom Pastor, deixando uma filha e sonhos de crescer para trás.

O marido é encontrado, disse que matou “por amor”. Mal sabe ele que matou várias vidas ao mesmo tempo por seu ato egoísta.

Márcia pode parecer uma história fictícia. Porém, em Natal, 11 mulheres foram assassinadas de forma similar em todo o Rio Grande do Norte em uma semana. Antigamente, o crime passional, morte entre companheiros, vira feminicídio. 30% das mortes envolvendo mulheres no Brasil são causadas por namorados/maridos.