Ruínas de Guarapes é testemunha do desenvolvimento econômico do RN no século XIX

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Quem trafega pela BR 226, na divisa entre a capital potiguar e Macaíba, um importante capítulo da história do desenvolvimento econômico do Rio Grande do Norte durante o Império Brasileiro, no século XIX, agoniza ao longo dos anos. As ruínas do Casarão de Guarapes, que possuía pouco mais de 200 metros quadrados, são o que resta do complexo Fabrício & Cia, construído em um terreno com nove hectares. Nele, funcionava a casa e o escritório do comerciante Fabrício Gomes Pedrosa, onde hoje fica o bairro do Guarapes.

Pedrosa era um comerciante pernambucano natural de Nazaré da Mata (alguns historiadores afirmam que ele era paraibano da cidade de Areia), com a esposa, Ana da Silva Vasconcelos, com quem teve sete filhos, entre eles Feliciana Maria da Silva, que mais tarde se casara com um de seus conterrâneos que se tornara então seu auxiliar mais próximo nos negócios, chamado Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão.

Após a morte da segunda esposa, instalou em Macaíba. O espaço foi testemunha de um período próspero entre Natal e Macaíba.  No local era armazenado toda a produção de açúcar, couro, algodão e uma infinidade de produtos de várias cidades do interior do Estado, e encaminhada para outras regiões do Brasil e países da Europa, principalmente a Inglaterra.

Em 1858, Fabrício casa-se com Luiza Florinda de Albuquerque Maranhão, irmã de seu principal sócio, Amaro Barreto, e muda-se de Macaíba para Guarapes, onde manda construir numa colina um imponente casarão e ao seu redor um verdadeiro complexo, incluindo armazém, escola, capela, alojamento para funcionários, e senzalas para os escravos. No ano de 1861, Fabrício Pedrosa se tornara o mais poderoso e influente comerciante da área, negociando uma infinidade de produtos e devido ao grande fluxo de mercadorias, principalmente após a construção do Porto dos Guarapes.

O porto, com ancoradouro quase tão extenso e profundo quanto o da Tavares de Lira, na Ribeira, funcionou às margens do Rio Guarapes e recebeu inúmeros navios que comportavam até 500 toneladas de mercadoria, ainda hoje navegável para canoas e embarcações anônimas de pequeno porte, alcançou o auge de funcionamento entre os anos de 1860 e 1890.

Por ele, grande parte da produção de algodão, couro, açúcar e cereais de cidades como São Paulo do Potengi, Serra Caiada, Ielmo Marinho, Santa Cruz e, São Pedro era enviada para a Europa e outras regiões do Brasil.

Em meados de 1871, casado desta vez com Dona Luiza Florinda Pedrosa, ele confia a direção do seu império ao genro Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão e viaja ao Rio de Janeiro, para cuidar da saúde. Mas, em 22 de setembro de 1872, morre o “Senhor de Guarapes” e é sepultado no Cemitério São João Batista naquela cidade. Após isso, o Casarão de Guarapes pertenceu a vários donos. Mas, com a chegada das linhas ferroviárias à região a força comercial de Guarapes e consequentemente Macaíba entra em declínio. O fechamento da casa comercial dos Guarapes, que funcionou entre os anos de 1859 e 1896, abalou financeiramente o estado do RN.

Tombada pelo Patrimônio Histórico do RN através portaria nº 456 de 1990, a estrutura, foi adquirida pelo Governo do Rio Grande do Norte em 2002, desde então, está sob os cuidados da Fundação José Augusto e nunca passou por reformas. Em 2010, a FJA manifestou o interesse em revitalizar o Casarão de Guarapes. Um grupo de arquitetos e engenheiros para avaliar as ruínas do que restou do complexo comercial Casa Fabrício & Cia.

Do porto de Guarapes não restou nada para contar história. Já do Casarão que pertenceu ao comerciante pernambucano Fabrício Gomes Pedrosa, apenas algumas paredes ainda resistem ao longo dos anos.

Apesar de esquecido pelo poder público, o Casarão de Guarapes recebe visitas, algumas, fiéis: durante o dia é iluminado por uma luz, que toma conta da região Nordeste do Brasil durante praticamente o ano inteiro, a do sol. Durante a noite é a vez da lua marcar presença. Outras, indesejadas: sabendo, ou não, do valor histórico do lugar, vândalos chegaram a furtar os tijolos de algumas paredes do Casarão.

Do antigo porto não sobrou exatamente nada para contar história, mas algumas sólidas paredes do Casarão dos Guarapes resistem, à ação do tempo e de criminosos, ao longo dos anos.

Nesse ciclo, de lembranças e esquecimento, o Casarão de Guarapes segue resistindo em qualquer que seja a estação, largado à própria sorte e à espera de um milagre que pode ser operado por homens humanos a quem lhes fora atribuído o título de autoridades.

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