Desconstruindo tudo com as Gabryuri

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-Recentemente a atriz Elke Maravilha deixou a vida terrena, porém ela nos deu a lição de que a gente não é obrigado a seguir o padrão imposto pela sociedade e que podemos fazer o que sentimos à vontade. Infelizmente ou felizmente, muitas pessoas seguiram os passos da Elke e estão vivendo fora da casinha.

Nós contaremos a história de duas amigas que descobriram, juntas, o direito de ser o que elas quiserem. Elas são bastante queridas da noite natalense pelas suas cantorias e discotecagens nas festas voltadas para o público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros). Sim, eu estou falando das Gabryuri e o Bufo será pesado mesmo. Quem pisou no Enigma ou Casanova, sabe muito bem de quem eu estou falando.

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Agora vamos contar a história delas e de como juntas ajudaram a se desconstruir e começaram a se amar pelo que elas são. Durante a entrevista foi muito comum as ver se referindo tanto no feminino quanto masculino. É novo para elas, esse mundo trans, por isso nem gostam de se definirem dessa seguinte forma.

Trans vem do termo transgênero. Refere-se aquelas pessoas cuja expressão social ou identidade de gênero difere daquela tipicamente associada ao gênero que lhes foi atribuído no nascimento (transexualidade). Também designa pessoas que não se identificam com as noções convencionais de homem ou mulher, combinando ou alternando as duas identidades de gênero (não-binário).

Tudo começou no shopping Midway, há dois anos, quando houve um encontro combinado pela internet. “Nos conhecemos lá, parecíamos melhores amigas e ficamos conversando direto”, comentou a Gabriel Dias. “Nossa, a gente ficou amiga logo de cara. Parecia que nos conhecíamos desde pequenas”, relembrou a Yuri Mafra.

A dupla chamava logo atenção pelo fato de terem mais de 1,80m, vestirem de forma chamativa e não desgrudavam. “Somos a Beyoncé e a Lady Gaga (risos)”, comentou Yuri. Foi nessa amizade, no qual uma visitava a casa da outra que começaram a confessar o que elas sentiam e descobriram muitas coisas em comum. Foi então que elas perceberam que eram transgêneros, apesar de não gostarem de definir neste rótulo. “A gente não quer se definir por um determinado conceito, como uma forma de levantar a bandeira, pois é tudo novo para nós, que descobríamos há pouco tempo”, relatou Yuri, que tem 18 anos e Gabriel, 19 anos.

Com este desabafo que as duas começaram a se conhecer melhor como ser humano, pesquisar – com dificuldade – sobre o transgênero e aderir aos trajes femininos, como salto, short e top cropped. “Queríamos roupas bem Kylie Jenner (socialite americana e famosa por participar de um programa)”, comentou Gabriel. Apesar das poucas amizades com trans, elas procuram os amigos do LGBT para conversar e se desconstruir conceitos impostos pela sociedade, como a drag queen Kaya Conky.

“Conheço a Kaya desde a minha juventude em Natal e começamos a carreira no mesmo período. Ela começou a fazer trabalhos como drag queen depois que a gente começou a andar assim. Hoje, ela sempre nos ajuda e orienta sobre determinadas ideias e conceitos”, disse Yuri, no qual também fazem performances como drag junto com Gabriel.

As Gabryuri em um ensaio recente
As Gabryuri em um ensaio recente

Foram assim que elas se libertaram das coisas que não se sentiam bem e finalmente mostraram o lado que estava escondido no meio de tanta repressão. Quando começaram a andar com roupas não masculinas nos lugares públicos, maquaidas, elas admitem ter deixado alguns familiares de cabelo em pé.

“Alguns ficaram chateados e tivemos que explicar bem direitinho o que acontecia”, comentou Yuri, que teve dificuldades com alguns familiares, visto que eles possuem uma visão mais conservadora. Gabriel, por sua vez, teve apoio dos pais e irmãos. “Mas a minha mãe pede cuidado quando saio de casa, principalmente por conta dos shorts curtos. Minha mãe é maravilhosa”.

Apesar da preocupação dos familiares, elas têm noção do perigo constante de irem as ruas e voltarem machucadas por causa da LGBTfobia, visto que elas já foram vítimas de bullying na escola ou foram xingadas na rua. “É normal, a gente andar na rua e alguém nos parar para xingar de viado. Mas, coisas ruins são esquecidas e seguimos em frente as nossas vidas”, garantiu Yuri Mafra, no qual cotidianamente elas matam um leão por dia.

Por falar em matar um leão por dia, foi assim que elas começaram a trabalhar nas noites potiguares. Tudo começou quando as duas frequentavam as baladas com os amigos e depois tiveram a oportunidade de discotecar no Casanova. Foi aí que surgiu a profissionalização do Gabryuri.

“O nome surgiu através das nossas amigas. Elas diziam que a gente não se desgrudava e ficavam nos chamando de Gabryurii, a junção dos nomes e a coisa pegou”, explicaram. Depois, elas gravaram a música “Bufo”, que inicialmente seria um inocente trabalho de faculdade de um grupo de amigos que cursam radialismo na UFRN. Mas, elas levaram a sério.

 

“Entretanto, o trabalho não deu certo, mas Frank Aleixo resolveu produzir a música e gostamos bastante do resultado. A gente ficou impressionada pelo fato das pessoas saberem cantar quando a gente começou a fazer as performances”, afirmou Gabriel Dias, no qual ainda admitiram que querem fazer o EP. Agora, elas estão tocando em algumas cidades, como Fortaleza, Recife e Mossoró quase todos os fins de semana. Elas buscam o profissionalismo e querem sempre se renovar, como analisando novos trajes, estilos e também estão fazendo performances como drag queen, se inspirando em mulheres trans que também fazem esta arte, como Carmen Carrera. A intenção é melhorar para receber cachês melhores.

Mas, isso não quer dizer que elas não têm plano b, visto que Gabriel estuda economia na UFRN e Yuri tenta arranjar um emprego para conseguir pagar os estudos e fazer o tratamento hormonal para fazer a transformação para mulher trans. “Esses hormônios custam muito dinheiro. Além disso, eu preciso de um emprego para ficar independente e conquistar a minha vida com meus próprios pés”, afirmou.

Gabriel, por sua vez, está adorando a vida acadêmica. “Achava que seria destratada pelo fato das pessoas falarem muitas coisas ruins do setor 1, mas a recepção foi ótima, tanto dos alunos quanto professores”.

Juntas, elas querem provar que podem ser o que quiser e realizar todos os seus sonhos. A arte e o estudo podem salvar várias trans de diversos problemas. “A gente já recebeu algumas mensagens nas redes sociais de muitas meninas dizendo que a gente a inspira”, comentaram.

Elas dão um recado para os preconceituosos:  “Vamos continuar lutando pelo nosso espaço de igualdade e que as pessoas estudem para não fazerem coisas erradas”, finalizaram.

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Sobre Lara Paiva
Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.

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