Um sábado no Big Peter: vendo luta de MMA

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Churrasco, farofa boa, cerveja gelada, demora para pegar comida, garçons irritados e várias conversas filosóficas. Este é um típico final de semana dentro do Big Peter. É um apelido carinhoso que dei para o local, no qual se souber um pouco de inglês vai saber qual espetinho estou falando e tem o público bastante heterogêneo. Em um período que as intolerâncias estão comendo solta, onde vermelho e azul não se misturam, o Peter recebe todos em um mesmo local.

É bastante visitado por estudantes universitários devido às inúmeras instituições de ensino por perto, gente que gosta de assistir futebol ou luta (por conta dos canais pay-per-view) ou gente que quer fazer um esquenta antes de ir para alguma festa badalada na cidade. Além disso, o local é conhecido por um ponto de fuga daqueles que querem sair de casa, mas estão com pouca grana.

Apesar dos espetinhos terem um preço salgado, pois custam mais que um real, você não conseguirá gastar em outros cantos da zona Sul de Natal menos que 25 reais se não for lá no Big Peter. O que Peter tem de especial?  Se você passar um dia dentro daquele estabelecimento comercial consegue contar diversas histórias dele e é um ótimo local para fazer umas brechadas. Um dia farei um livro com todas as histórias que catei de lá.

Dessa vez vou contar o dia que assisti uma luta de UFC.

Um amigo meu tinha chamado para assistir a luta de José Aldo, achando que iria vencer novamente. Tinha acabado de chegar de um dia inteiro na pós-graduação de marketing digital e dentre outras coisas. Não estava ostentação, mas ao mesmo tempo queria sair. Então, um outro amigo me chamou para ter aquele nosso encontro do Big Peter, que é duas quadras perto de casa e meus pais não poderiam reclamar que tinha saído para cantos distantes.

Como sempre, as mesas estavam ocupando a calçada do estabelecimento, no estacionamento e um pouco para rua. O restaurante em si é num espaço em forma de quadrado. Na parte externa possui duas enormes televisões que estavam transmitindo o mesmo canal.

Eram 23 horas quando cheguei no Peter, que como sempre estava lotado. Meus amigos estavam perto de um carro, bebendo sua cerveja super gelada pega do balcão, pois não havia mais mesas. De repente, alguns resolveram ir para Ribeira, deixando eu, meu namorado e mais dois amigos no Big Peter. Não tinha problema, nós continuamos a conversar sobre jogos, coisas nerds e programação, visto que meu namorado e os outros dois eram programadores. Enquanto isso, eu ficava observando os fatos que estavam acontecendo.

No meio disso, o barulho era:

– QUERO ESPETINHO DE CARNE.

– TRAGA UMA PORÇÃO EXTRA DE VINAGRETE.

– P*, A CERVEJA ESTÁ QUENTE.

– HEY, GARÇOM!

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Por falar nos garçons, eles são poucos para aguentar aquela demanda toda. Alguns chegam a ficar estressados por ter muita gente para atender. Apesar disso, eles sempre fornecem dicas para conseguir o melhor atendimento possível. “Olha fica naquela mesa um pouco mais na frente que a gente consegue atender melhor”, dizia um funcionário em uma troca de pano no ombro para outro.

Quando achamos a mesa, as coisas ficaram melhores e comecei a ver televisão quando começou as principais lutas de UFC. Neste período, todo mundo parou o que estava fazendo e começou a prestar atenção.  Começaram os gritos e urros em cada surra que algum lutador perdia. Me senti dentro de um final da Copa do Mundo.

Enquanto isso:

– QUERO UM ESPETINHO DE CORAÇÃO!

– CADÊ AQUELE MEU QUEIJINHO DE COALHO?

– ACABOU A SKOL?

Uma fileira de espetinhos pré-pronto já estava à espera de serem assados juntamente com um enorme recipiente de farofa e vinagrete. Ficava observando, os rapazes rapidamente colocando aquelas comidas na enorme churrasqueira. Mesmo assim, eles ainda não conseguiam tomar conta. Apesar disso, as pessoas ainda continuam frequentando o Big Peter e procurando mesas.

A luta começou, Chris Weidman finalmente perdeu seu cinturão após ter derrotado quase todos os lutadores made in Brazil. A cada surra que o americano levava era um grito de comemoração para quem estava sentado. Até aqueles que estavam uns 10 metros da televisão, comemoravam.

– TOMA ESSA POR BATER NOS BRASILEIROS! – dizia um mais atacado.

Nesse ínterim,  o papo sobre programação de computador foi ao brejo e ficamos falando da luta. Um dos meus amigos começou a ficar agoniado com a quantidade de sangue espirrado dentro do octógamo. “O cara está todo deformado”, dizia um deles com cara de espanto. Apesar de nunca ter praticado nem judô, viramos especialistas de MMA, juntos com outras pessoas que estavam nas mesas vizinhas. Os garçons também pararam o que estavam fazendo.

– BOY, FINALMENTE WEIDMAN ESTÁ PERDENDO. VAI MORRER AGORA, SEU FDP!

Enquanto isso, meu celular vibra e era aquele amigo que tinha me convidado primeiro para um bar mais distante, dizendo que estava em casa e teve problemas. Após o desabafo, começamos a falar via chat de Facebook a luta de Weidman.

Enquanto isso, meus amigos e meu namorado ficavam gritando cada final de round. Após o quinto round, o Weidman perdeu seu cinturão para a alegria dos brasileiros presentes no Big Peter. Até que sinto uma premonição:

– Felipe, vamos pagar a conta logo dos espetinhos, porque não se sabe se a próxima luta vai terminar logo no primeiro round.

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Felipe foi ao caixa. Quando ele voltou à mesa, começou a abertura da luta de José Aldo. O povo do Big Peter estava bastante louco, gritando e torcendo. Quando começou a frase do “It’s Time”, alguns vizinhos pareciam que iriam ter um troço.

– O concorrente é mais bonito que o brasileiro – brincava um dos meus amigos.

A luta começou. Pera, já acabou? Sim, 13 segundos depois, o brasileiro perdeu e ficamos impressionados com as provocações do concorrente.

– ESSE HOMI É UM GALADO, FICOU ESTIRANDO OS DEDOS PARA A TORCIDA. NOJENTO!

Rapidamente, a gente foi embora e sendo engolido pela enorme fila de pagamento do caixa. Despedimos dos nossos amigos, que rapidamente voltaram ao assunto de programação.

– EI! ME ENSINE A PROGRAMAR C++

Saímos e fomos direto ao carro e a reclamação era que a luta foi sem futuro.

– Não acredito que ficamos acordados até 3 da manhã para ver o cara sendo derrotado em segundos.


Sobre Lara Paiva
Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.

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