Mimado: consequências de uma criação agressiva

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– É uma história de um garoto mimado. História fictícia. Crônica baseada a partir de relatos que aconteceram recentemente em Natal e de que já presenciei. 

Este é o “João”, filho mimado e bastante esperado por um casal de médico e advogado. Eles moram em um casarão duplex em Petrópolis, zona Leste de Natal. A mãe é Procuradora do Estado e uma advogada bastante privilegiada. Os seus clientes são os principais políticos e empresários da cidade. O pai possui uma conceituada clínica da cidade.

João nasceu numa tarde ensolarada do dia 10 de outubro de 1970. Brasil foi tricampeão na Copa do Mundo do México, auge do governo de Emílio Médici, pessoas sendo torturadas por criticar o Governo Estadual (AI-5 rolando solta naquele momento) e início da televisão em cores nas terras tupiniquins.

Sim, o seu nascimento foi de bastante de destaque pela mídia, sua foto de recém-nascido estava estampada nas colunas sociais. Que menino lindo, abençoado!

“Meu filho será macho e muito forte!”

“Vai ficar com todas as meninas da cidade”

“Será um rei”

“Nada de mal irá acontecer com ele”

Mal conseguia falar já tinha joias, roupas compradas fora de Natal e brinquedos que deixaria qualquer dono de loja com inveja. Porém, ele não queria isso. Sua diversão era bater no povo e os pais achavam isso engraçado. Aos dois anos, as suas birras mostravam o forte temperamento do meninote.

“Ah, ele tem uma personalidade bastante forte”.

Era o rei da casa. Sua primeira viagem internacional foi aos seis anos de idade. Entretanto, o seu reinado acabou quando a irmã nasceu. Começava a bater nela. Os pais lhe colocavam de castigo e davam umas boas palmadas (de chinelo ou cinto), mas depois logo se arrependiam.

João sabia que qualquer coisa que fizesse e desagradasse os seus pais levaria a surra. Portanto, aprendeu que a agressão é a resposta quando ficar insatisfeito.

Se sua irmã mexesse no seu Atari, era um tapa. Se aquela menina bonitinha não estivesse interessada nele, a empurrava e xingava. Se seus pais não fizessem o que exatamente queria, ele quebrava o quarto todo. Xingava os colegas que possuíam características diferentes dele. Perdeu as contas de quantos foram chamados de quatro olhos, cabelo ruim, Olívia Palito e dentre os outros apelidos.

A coordenação do seu colégio, tradicionalmente religioso da cidade, sempre ligava para reclamar de seu comportamento inadequado, porém seus pais achavam que “estava de marcação”. Nada podia detê-lo, tanto que ganhou a eleição de grêmio estudantil após oferecer lanches gratuitos aos alunos mais novos. Achava que era educado e gentil só por tirar sarro ou fazer “brincadeirinhas” com os zeladores na instituição de ensino. Adorava ficar rodeado de gente, todo mundo era seu amigo (ou não).

Na adolescência, período inconsequente da vida, começou a beber (aquele chopinho, básico),  ir às festas para 18 anos e sabia dirigir com apenas 14 anos. “Que menino, engraçado, este João”/”Que boy doido”/ “Que boy massa, namora meninas acima de 18 anos”.

Após anos de gazeadas e colar nas provas, ele não passou no tradicional vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). “Não tem problema, meu filho. Pagarei a sua faculdade de Direito que tanto quer”. E conseguiu, a vontade era ser um advogado tão prestigiado quanto a sua mãe. Queria ser o herdeiro do escritório de advocacia.

“Estagiou” no escritório da mãe, aprendeu bastante em assediar as secretárias. Gastava o dinheiro do estágio mais a mesada gastava com farras no Circo da Folia, batia nas prostitutas, gostava de ir aos jogos de futebol para agredir os torcedores rivais e achava engraçado dirigir bêbado.

Casou com um outro membro da aristocracia natalense, teve filhos e parecia um comercial de margarina, mas era mentira. Ele adorava ver as mulheres da revista masculina, porém repulsava a esposa em usar decotes ou saias curtas.  João não trabalhava, ainda vivia dos mimos da mãe e nem sabia o quanto gastava.

Um belo dia, João estava dirigindo na Avenida Prudente de Morais. Bêbado, tinha recém-saído de uma festa na boate de Natal. Entretanto, no cruzamento entre a Prudente de Morais com a Bernardo Vieira, este bateu a sua Hilux com um Palio que estava parado no sinal vermelho. Puto da vida, ele desceu no carro e foi tirar satisfação do porquê o motorista estava parado.

“O sinal está vermelho, meu garoto. Tenho que respeitar as leis de trânsito”

“Você sabem quem eu sou? Sou rico e sou privilegiado, seu fdp”

“E…?”

Depois disso, o João pegou o macaco de seu carro e agrediu o motorista. Ficou fora de si, estava insatisfeito por não ter sido “bem atendido”. O dono do Palio ficou gravemente ferido, o outro pegou o carro e rapidamente fugiu. Pedestres estavam na hora e ligaram para o Serviço Móvel de Atendimento de Urgência (Samu), mas não dava mais tempo, ele estava morto após um traumatismo craniano. A polícia foi acionada e com as câmeras de segurança identificou o agressor, que prestou depoimento e pagou uma fiança bastante gorda.

Vai responder ao processo por homicídio culposo. É aconselhado para a fugir do país, apesar dos protestos da população e dos familiares da vítima pedindo justiça. João fica impune.

A história é fictícia, mas existe vários “João” em Natal, Recife, Fortaleza, Rio de Janeiro e qualquer cidade brasileira ou de outro país. É o retrato de uma juventude perdida, que procura preencher os seus vazios de maneiras boas ou ruins


Sobre Lara Paiva

Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.

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