Júlio César, o pregador do ônibus

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Estava na parada do CCAB Sul em direção ao bairro da Ribeira. Já eram 8 horas e queria pegar apenas o 46 ou Eucaliptos, mas só passava o 73. “Pena que ele vai para o Santarém, não para o canto que eu quero”, lamentava. No abrigo de ônibus ficava uma banca, onde o dono ficou rindo do meu modo de atravessar a rua e ao mesmo tempo conversava com a funcionária sobre como colocar crédito no celular.

20 minutos. Parecia que iria demorar um século. Após três ônibus da linha 50 passando, eu finalmente vi um “Eucaliptos”, sendo que vai em direção ao Alecrim para depois chegar na Ribeira. Tudo bem, vai ser mais trânsito do que o Via Praça, mas só tem ele mesmo.  Paguei, preenchi aquela maldita fichinha e sentei no fundão, onde ninguém me perturba e posso escutar minhas músicas com fones de ouvido em paz.

“Droga, eu esqueci os meus fones” – resmungo.

O Júlio César estava três fileiras perto da porta de saída, que fica no meio do ônibus. Achava que só tava lendo a bíblia por gostar do livro e estava refletindo sobre o assunto antes de ir ao trabalho. Até que um escuto um grito:

-PESSOAAAAAAL, PRESTEM ATENÇÃO! (Não sabia quem estava gritando)

Quando escuto esta frase, eu penso em três coisas:

1) Gente do Manasés ou do Leões de Judá para falar sobre as suas respectivas organizações que reabilitam viciados em drogas.

2) Assalto

3) Um músico ou pregador

Na verdade era o rapaz que estava lendo a bíblia, que dessa vez estava nas suas mãos e começou a contar história de vida. Já que estava sem os fones e tinha uma longa viagem pela frente, eu resolvi prestar atenção do que aquele jovem pregador poderia dizer.

Minhas experiências com gente pregador protestante não são as melhores, dentre algumas razões estão: 1) Alguns tentam te converter a força, 2) Muitos julgam pela sua aparência achando que você é um ateu satanista das caveiras pretas, 3) Eu tenho uma família cuja boa parte é crente e já ficam me azucrinando do fato de ter sido comungada e batizada no catolicismo.

Nem precisei entrevistar para fazer o texto, visto que ele ficou 40 minutos pregando da parada da Igreja Universal (na Avenida Salgado Filho) até a Avenida Presidente Bandeira (em frente ao Ministério do Trabalho) pregando e contando a sua biografia, que é muito mais interessante de qualquer político ou gente famosinha exposta no site Ego. Apesar dele ter fazendo as pregações, ele não era um cara chato ou forçador de barra, por isso eu comecei a prestar atenção.

Bom dia que pegou um Busão com pregação

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Vamos contar a sua história:

Júlio César nasceu numa comunidade carente em Natal. Desde cedo teve contato com os traficantes que eram seus vizinhos. Cansada da pobreza e de uma família disfuncional, ele rapidamente vira um traficante e se vicia em entorpecentes. Depois, começa assaltar os ônibus de Natal, atividade era quase corriqueira. Pegava as bolsas para ver se tinha algum celular ou trocado para se sustentar e ao mesmo tempo continuar com seu vício.

No meio desses assaltos aos ônibus, a polícia estava lá, o cerco fechou e entrou no xadrez. Julio ficou cinco anos preso e hoje responde em condicional.  “Todo mês eu tenho que ir para o fórum mostrar que não estou fazendo alguma besteira”,

Foi na cadeia que ele teve contato com a Bíblia, após uma pregação dentro da unidade prisional. Ao sair da cadeia, ele teve dois caminhos: voltar para o crime ou procurar alguma alternativa. Sabendo que o emprego estava difícil, por diversas razões, e não queria virar um criminoso novamente resolveu vender balas no canto em que fazia medo nas pessoas: no ônibus.

“Então, irmãos, eu percebi que não podia ser apenas um vendedor de balinha qualquer no ônibus, tinha que mostrar a minha transformação. Jesus me disse que tinha que fazer um diferencial nas pessoas e antes de vender os meus produtos, eu sempre dou meu testemunho. É isso que eu faço o dia todo, mostrar a palavra de Deus para as pessoas”, disse durante a pregação.

Após vender os seus cinco pacotes de jujubas, Júlio César desceu e ao contrário de outros pregadores comuns da igreja, ele não ficou rico ou virou um pregador de grupo, mas um cara que está todo dia tentando limpar a barra e mostrar que está limpo.


Sobre Lara Paiva

Oi, eu sou o Goku. Mentira, meu nome é Lara. Sou jornalista formada pela UFRN, natural de Natal. Sempre fui de humanas. Tem um blog para expor as suas curiosidades e anseios desta vida e mostrar os diferentes lados da vida urbana.

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